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Mostrando postagens de março, 2026

Esses jovens - Renê Paulauskas

  Esses jovens... todos jovens, acham que sabem de tudo. Não sabem nada. Acham que vão viver pra sempre, que tudo vai dar certo, nem pensam, só fazem. Eu também já fui jovem. Imaturo, bondoso, acreditei no amor. Hoje sei que o amor é uma falácia. Não é à toa que hoje os casamentos não duram, justamente porque são baseados no “amor”. Antigamente as alianças tinham um outro sentido, que não o romântico. As pessoas casavam como forma de garantir o patrimônio, e assim sua sobrevivência. As mulheres eram negociadas pelos seus pais como um bom negócio. E os casamentos duravam. Não só pela estabilidade financeira, mas também porque era proibida a separação. Mas o que penso hoje, depois de me frustrar com a vida amorosa é, será que antes, os relacionamentos estáveis, onde se ia conhecendo o parceiro dia a dia ao longo dos anos, será que, isso não aproximava o casal mais do que esse ambiente competitivo onde todos estão disponíveis e sem ânimo pra se conhecer? É fácil pensar que tudo vai ...

Ana - Renê Paulauskas

  Ana   Os dias passam monótonos nessa prisão chamada vida. Tenho preguiça até para sair pra rua comprar o absorvente que acabou. E a TPM já voltou. Estou procurando concursos, já que a vida de escritora é mais uma fantasia. Publiquei um livro de poesia em Portugal, mas o dinheiro não dá nem pra diarista. Os amigos e amigas, cada vez mais distantes. Tenho preguiça, agora beirando os cinquenta, de fazer novas amizades. É uma vida muito solitária, confesso. Mais cercada de plantas do que gente. Elas me ouvem melhor. Namoro, só valeu com as poucas mulheres que amei. Apesar que a Lígia era compreensiva demais. Mais uma mãe do que uma companheira. E a Solange, doida demais, não tive muita paciência, durou só quatro anos. Os homens foram um fracasso. Egóicos, inseguros, pareciam crianças mimadas que não tive saco para criar. Fumo, porque a vida não vale a pena. E não quero estar aqui quando o mundo acabar. Escrevo como forma de não enlouquecer, mas com um pé na loucura...

Uma história - Renê Paulauskas

  I Jovens Renan e seu amigo, Emerson, se conheceram numa Escola de Arte de São Paulo onde passaram anos melhorando seus desenhos. Emerson observa Renan escrevendo numa folha até ser toda preenchida, pede ao seu colega para ler. Renan explica que é só um treino para escrita em quadrinhos. Mesmo assim ele insiste. Quando pega para ler, nada faz sentido. Emerson mostra um tempo depois um conto gótico dele. Renan lê e acha engraçado. Os dois se tornam amigos. ___ Renan, você não disse que já fez teatro, descobri um lugar novo muito legal! É o Paço Municipal, lá em Santo André. Tão montando uma ópera punk, vamos?   II Ópera Punk Eram anos 2000, havia passado vinte anos do movimento punk, mas vários jovens estavam ali para conhecer aquele universo. Renan entrou na sala de ensaio observando aquelas pessoas tentando decorar seus textos e num impulso repetiu uma fala com entusiasmo e todos se assustaram e depois começaram a rir e assim foi aceito no grupo.     ...

Consciente - Renê Paulauskas

 Após vinte e três anos do meu primeiro surto psicótico, onde tive delírios de milagres de limpar a face berebenta de um homem com um gesto tapando de cima abaixo a visão que me incomodava, e em outro dia fazendo as pessoas congelarem no tempo literalmente ao pronunciar a frase "Vós sois deuses", ambos acontecimentos no pronto socorro onde estava internado, começou um processo desvendando aqueles e outros enigmas do meu inconsciente. Achei no gnosticismo a chave para toda sua viagem de auto conhecimento. Onde Jesus seria um mensageiro a nos libertar da ignorância e de nossa "prisão", com toda sua materialidade, desse mundo. Mundo esse governado por arcontes e controlado por agentes. Teríamos uma sentelha de luz pela qual podemos nos iluminar e voltar à Sofia depois de morrer. Existiria uma grande luz azul limitando esse mundo material do Demiurgo, o Deus dessa terra, que não seria a grande luz celestial (Sofia), que erdamos a sentelha, uma luz branca ou amarela, que...

Papai- Renê Paulauskas

 Meu pai foi um ótimo pai, sempre tivemos muito diálogo, falávamos sobre tudo. Me apoiou quando eu mais precisei, na minha separação, na minha doença. Tinha seus defeitos, como todo mundo, e o pior deles foi bater na minha mãe até se separarem. É muito difícil perdoar esse lado do meu pai, mas também impossível não ver que ele também tinha um lado bom.

Irmã mais nova- Renê Paulauskas

 Eu e minha irmã mais nova nunca fomos próximos. Temos onze anos de diferença, ajudei na criação até virar adulto e sair de casa, mas nunca tivemos intimidade. Quando voltei pra casa da minha mãe após meu diagnóstico de bipolaridade nossa relação continuou distante. Pouco depois foi a vez dela sair de casa. Teve uma filha, se separou e conheceu seu companheiro até o momento. Já uns anos mantenho contato com ela via whatsapp. Tentei estreitar os laços nesse tempo, mas a verdade é que nunca fomos próximos. Tenho uma consideração, e até um carinho, por ter ajudado a cria-la desde criança, mas falta algo. Tem uma frieza e praticidade em tudo que ela faz que me perturba.