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Nova Era - Renê Paulauskas

  No período da grande crise climática, responsável pela aniquilação da maioria das espécies animais e vegetais do planeta, duas forças políticas principais nortearam o mundo. De um lado os negacionistas, puxados por Estados Unidos e parte da Europa, continuando utilizar derivados do petróleo, emitindo dióxido de carbono. E do outro lado a China e os países do Sul Global utilizando novas formas de energia renováveis, como a solar. Esse misto de forças divididas num mesmo planeta fez com que o mundo sucumbisse numa atmosfera de grande aniquilação. Temperaturas extremas beirando a 50 graus centígrados, quando a maioria dos animais resiste a 40 graus, fez o ser humano se isolar do clima. Países ricos projetaram longos canais subterrâneos isolados do calor e do frio, a depender de cada clima. Países pobres sofreram a devastação, que ao longo de dez anos, deixou inválida a vida em várias partes do globo. Desesperados com a situação, um grupo conhecido como ´´Ciência Para o Progres...

Cérebro - Renê Paulauskas

 Hoje em dia já é possível através de um tomografia computadorizada identificar quais partes do cérebro de uma pessoa está mais ativo. Assim é usada essa tecnologia pra identificar doenças mapeando esse órgão de nossa cabeça.  Transferir os impulsos nervosos de um cérebro por meio de uma máquina similar a essa para outra pessoa, pode ser uma revolução. Imagine podermos pensar como outras espécies. Ou mesmo para saber como pensa um cérebro neuro divergente em seus mais diversos tipos. Um psicopata. E tantos outros tipos que agora me fogem a mente. Seria o fim da ideia de superioridade do animal humano sobre outras espécies. Da verificação de um novo tipo de inteligência em pessoas chamadas loucas. Um entendimento menos apelativo do modo de pensar de um psicopata. E por aí vai. Ainda correríamos riscos em usar uma máquina como essa para fins de controle das massas. Formas mais eficazes de vender e propagar o consumo. Controlar nações por técnicas mais avançadas de fascismo etc. ...

Pequenos Bilhetes - Renê Paulauskas

  Ultimamente escrevo em pequenos bilhetes os eventos da cidade com data e horário. No começo era um lembrete para não esquecer. Depois passou a ser uma alternativa possível para sair. Hoje é mais, uma sinalização de que existem coisas acontecendo lá fora.   Não saio sozinho há muito tempo. A não ser pra resolver coisas pelo bairro. Um dia desses fui ver uma contação de histórias na biblioteca do bairro. Cheguei uns quinze minutos antes, quando ainda preparavam o palco. Sentei no fundo, até ser percebido pela atriz principal, que me chamou pra chegar mais perto. Numa das histórias, um pai de família em estado de miséria troca sua alma por alimento e moradia pra sua família sobrando apenas mais um desejo. Nesse momento a contadora se dirige a mim e pergunta pra mim o que eu pediria. Surpreso falo: pra mim? Pra mim mesmo, acho que nada. O fim da fome no planeta talvez seja um bom pedido. Saio da biblioteca contente com minha resposta e me dirijo ao posto de saúde do bairro p...

Precipícios - Renê Paulauskas

  Eu tive uma visão que a vida fora dessa matrix seria como uma ilha contornada por precipícios de liberdade que fazem os corações saltarem pela boca. Uma vida arriscada, bem diferente da que temos aqui. Com perigos reais, mas uma liberdade imensa, tão grande que a própria vida se torna pequena. E seria esse o motivo da matrix, nos preservar do risco, nos tirando a liberdade. Como mortos vivos seguimos nossas vidas. Tão previsíveis e chatas, nos fechamos pra novas possibilidades, cada vez mais escassas. Por que estou vivo? Por que estou aqui? São perguntas que passam por nossas mentes. É possível viver bem dentro da matrix? Não sei. Aparentemente os indígenas integrados à natureza e os africanos às suas tradições, são tipos ideais de vida nesse planeta. Mas na realidade, a maior parte desses hoje em dia vivem um colapso de afastamento da natureza e suas tradições. Mas, sim. A integração com a natureza e a comunidade acredito que seria o melhor dos mundos. Os celulares indiv...

Homem - Renê Paulauskas

  Homem de meia idade vestindo roupas velhas, cabelo despenteado meio comprido e barba por fazer entra em cena, arrota e em seguida solta um longo peido... É isso o ser humano, não o galã de novela. Nem o herói da odisseia ou o monstro debaixo da cama. Esse que reclama. Meio animal, meio Deus. Às vezes bom, outras cruel. Com sorte, tem o que acreditar. Com pesar, mal tem pra onde olhar. E nessa fricção se fazem bons, se fazem maus. Os mesmos homens, com ou sem paz. Tivessem os mesmos direitos, mesmas chances e enredos, não seriam bons nem maus, seriam todos iguais. Penso naquele jovem de quinze anos, seu sorriso, seu olhar. Vejo ele com trinta anos, desiludido, mas ainda vivo. Agora com cinquenta anos, insuportável como o cão. O que perdeu no caminho? Envelhecer é um processo de perdas. Perda da inocência. Perda da juventude. Perda de amores. Perda de amigos. Perda de parentes. Se no final te sobra algo, é quase um milagre, que segura com as mãos como um minúsculo grão a bril...

Sonho - Renê Paulauskas

  Desde criança eu duvido da realidade. Antes achava que era como um sonho acordado. Transito nesse sonho que às vezes mais parece pesadelo. Os próprios sonhos, antes cheios de inquietação e significado, hoje passam em branco, esquecidos, ignorados. A questão é que quero acordar. Mas não consigo, talvez só quando não estiver mais nesse corpo. Até lá, tento me bastar das coisas desse lugar. Comer, dormir, acordar. Família, amigos, um lar. Coisas que façam sentido nesse habitat. Não é que eu não sinta amor. Que não me afete com as pessoas, ou outros animais, é como uma intuição, de que aqui não é o meu lugar. Então habito como um alienígena tentando descobrir coisas tão óbvias, que nem pensaram o porquê. Minha mãe e um amigo me chamaram de filósofo por pensar nessas coisas. Não acho que seja o caso. Mesmo os filósofos tem um lugar. Sinto que o meu é um não lugar. Quando jovem fui marginal. Não por falta de oportunidade. Mas por não diferenciar o bem visto do mal visto. No fin...

Polícia assassina - Miguelito

No Brasil sempre foi claro o alvo da polícia: Pretos, pobres, nordestinos, gays, trans... Mas agora está muito mais democrática exercendo sua crescente violência sobre qualquer um que não seja da elite. Atira antes pra perguntar depois. É essa matança desgovernada feita pelo Estado que esconde os altíssimos índices de assassinatos, pois os feitos pela polícia, não são contabilizados. Essa polícia não merece continuar atuando. Não sem dar esclarecimentos a quem paga seus salários, nós, contribuintes. Pagar pra sermos mortos?! Desde o regime militar passado foi criada a polícia militar. Com treinamento de exército, não para proteger a população, e sim ataca-la, vem promovendo uma verdadeira carnificina no Brasil. Tudo começou lá atrás ainda na escravidão quando se perseguia o negro só por carregar um violão, jogar capoeira ou reverenciar os orixás. Pobres e nordestinos também eram perseguidos. Além de outros que incomodavam a gente graúda e seus puxa sacos. O caso é que quem mantém o Est...

Não quero ser forte - Renê Paulauskas

Não, não quero ser forte. Muito menos me superar. Quero uma vida simples. Boa pra se gozar. Não quero muito dinheiro. Nem ter que muito trabalhar. O conforto de um corpo saudável. Casa e comida e algum pra passear. Bons amigos pra me lembrar, das coisas que valem a pena. Família pra acompanhar, que nada se faz sem amar.

Gozar a vida - Renê Paulauskas

Gozar! Depois desmaiar e acordar quando todas as luzes já foram apagadas.  Nenhum livro escrito, nenhuma árvore plantada, nem um filho criado. Só viver. A insignificância do ser que dorme, respira, sonha e acorda. E sair pra comprar pão. Ver o dia nas ruas, sua luz, seu clima. Falar bom dia pra moça da padaria. Falar com o caixa do mercadinho. Voltar cheio de coisas e tomar um café da tarde com quem você gosta. Escrever uma carta longa pra aquele amigo que está no outro lado do mundo, mas que sente as mesmas coisas que você. Falar bobagem com os mais íntimos, voltar à quinta série. Perguntar da família, se todos estão bem. Não se preocupe em ser útil, deixe isso pras IAs. Vá fazer o que der na telha. Se não quiser não faça nada. Mas não vá se perder pelo caminho. 

Coisas inúteis - Renê Paulauskas

 Sim, ao menos que você não seja um psicopata, nós somos dependentes uns dos outros. Lembro da minha tia, que se orgulhava de ter casado com o amor da vida dela, quando ele faleceu, ficou uma verdadeira zumbi. Passou anos e começou a namorar o amigo do falecido marido, reviveu, não da mesma maneira de antes, mas muito melhor do que sozinha. Eu e minha mãe somos co-dependentes um do outro. Eu dependo da sua faxina, de cortar o alho e a cebola às segundas pra eu cozinhar e de seu jeito amoroso e divertido. Ela depende de mim para levar o lixo na rua, cozinhar e ajudar a carregar as compras do mercado. Fora isso tenho uma filha. Converso pelo celular com ela quase todo domingo. Pergunto das novidades, dos amigos, da faculdade e do namorado. Ficamos uns quarenta e cinco minutos no telefone. É uma menina ótima, tem um jeito doce, mas é justa ao extremo. Sempre quando posso tento amansar esse seu lado. Também tenho uma irmã, onze anos mais nova. Também falo mais pelo celular do que ao vi...

Inteligência - Renê Paulauskas

Na natureza os animais usam técnicas para sobreviver desde que existe vida da Terra. Há milhões de anos nossos antepassados foram mordidos pela técnica de uma maneira que os deixou cada vez mais dependentes. Primeiro foi a pedra lascada, depois o domínio do fogo, consequentemente o aumento do cérebro humano, mais técnicas, até o desenvolvimento de tecnologia e tecnologias. Desde os primórdios o homem foi controlado pela técnica que ao longo de sua pré história ficou cada vez mais dependente de suas técnicas até o homo sapiens e depois o homo sapiens sapiens, que somos nós, dependentes totalmente de coisas como fogo, água, agricultura... até chegarmos na energia elétrica e depois celular. Hoje vivemos um novo período onde a inteligência se desgrudou do cérebro humano, a IA (inteligência artificial). E já estamos dependentes dela. Já se verifica uma primeira geração de pessoas menos inteligentes após essa separação. Mas isso não é necessariamente ruim. A inteligência humana se mostrou de...

Esses jovens - Renê Paulauskas

  Esses jovens... todos jovens, acham que sabem de tudo. Não sabem nada. Acham que vão viver pra sempre, que tudo vai dar certo, nem pensam, só fazem. Eu também já fui jovem. Imaturo, bondoso, acreditei no amor. Hoje sei que o amor é uma falácia. Não é à toa que hoje os casamentos não duram, justamente porque são baseados no “amor”. Antigamente as alianças tinham um outro sentido, que não o romântico. As pessoas casavam como forma de garantir o patrimônio, e assim sua sobrevivência. As mulheres eram negociadas pelos seus pais como um bom negócio. E os casamentos duravam. Não só pela estabilidade financeira, mas também porque era proibida a separação. Mas o que penso hoje, depois de me frustrar com a vida amorosa é, será que antes, os relacionamentos estáveis, onde se ia conhecendo o parceiro dia a dia ao longo dos anos, será que, isso não aproximava o casal mais do que esse ambiente competitivo onde todos estão disponíveis e sem ânimo pra se conhecer? É fácil pensar que tudo vai ...

Ana - Renê Paulauskas

  Ana   Os dias passam monótonos nessa prisão chamada vida. Tenho preguiça até para sair pra rua comprar o absorvente que acabou. E a TPM já voltou. Estou procurando concursos, já que a vida de escritora é mais uma fantasia. Publiquei um livro de poesia em Portugal, mas o dinheiro não dá nem pra diarista. Os amigos e amigas, cada vez mais distantes. Tenho preguiça, agora beirando os cinquenta, de fazer novas amizades. É uma vida muito solitária, confesso. Mais cercada de plantas do que gente. Elas me ouvem melhor. Namoro, só valeu com as poucas mulheres que amei. Apesar que a Lígia era compreensiva demais. Mais uma mãe do que uma companheira. E a Solange, doida demais, não tive muita paciência, durou só quatro anos. Os homens foram um fracasso. Egóicos, inseguros, pareciam crianças mimadas que não tive saco para criar. Fumo, porque a vida não vale a pena. E não quero estar aqui quando o mundo acabar. Escrevo como forma de não enlouquecer, mas com um pé na loucura...

Uma história - Renê Paulauskas

  I Jovens Renan e seu amigo, Emerson, se conheceram numa Escola de Arte de São Paulo onde passaram anos melhorando seus desenhos. Emerson observa Renan escrevendo numa folha até ser toda preenchida, pede ao seu colega para ler. Renan explica que é só um treino para escrita em quadrinhos. Mesmo assim ele insiste. Quando pega para ler, nada faz sentido. Emerson mostra um tempo depois um conto gótico dele. Renan lê e acha engraçado. Os dois se tornam amigos. ___ Renan, você não disse que já fez teatro, descobri um lugar novo muito legal! É o Paço Municipal, lá em Santo André. Tão montando uma ópera punk, vamos?   II Ópera Punk Eram anos 2000, havia passado vinte anos do movimento punk, mas vários jovens estavam ali para conhecer aquele universo. Renan entrou na sala de ensaio observando aquelas pessoas tentando decorar seus textos e num impulso repetiu uma fala com entusiasmo e todos se assustaram e depois começaram a rir e assim foi aceito no grupo.     ...

Consciente - Renê Paulauskas

 Após vinte e três anos do meu primeiro surto psicótico, onde tive delírios de milagres de limpar a face berebenta de um homem com um gesto tapando de cima abaixo a visão que me incomodava, e em outro dia fazendo as pessoas congelarem no tempo literalmente ao pronunciar a frase "Vós sois deuses", ambos acontecimentos no pronto socorro onde estava internado, começou um processo desvendando aqueles e outros enigmas do meu inconsciente. Achei no gnosticismo a chave para toda sua viagem de auto conhecimento. Onde Jesus seria um mensageiro a nos libertar da ignorância e de nossa "prisão", com toda sua materialidade, desse mundo. Mundo esse governado por arcontes e controlado por agentes. Teríamos uma sentelha de luz pela qual podemos nos iluminar e voltar à Sofia depois de morrer. Existiria uma grande luz azul limitando esse mundo material do Demiurgo, o Deus dessa terra, que não seria a grande luz celestial (Sofia), que erdamos a sentelha, uma luz branca ou amarela, que...

Papai- Renê Paulauskas

 Meu pai foi um ótimo pai, sempre tivemos muito diálogo, falávamos sobre tudo. Me apoiou quando eu mais precisei, na minha separação, na minha doença. Tinha seus defeitos, como todo mundo, e o pior deles foi bater na minha mãe até se separarem. É muito difícil perdoar esse lado do meu pai, mas também impossível não ver que ele também tinha um lado bom.

Irmã mais nova- Renê Paulauskas

 Eu e minha irmã mais nova nunca fomos próximos. Temos onze anos de diferença, ajudei na criação até virar adulto e sair de casa, mas nunca tivemos intimidade. Quando voltei pra casa da minha mãe após meu diagnóstico de bipolaridade nossa relação continuou distante. Pouco depois foi a vez dela sair de casa. Teve uma filha, se separou e conheceu seu companheiro até o momento. Já uns anos mantenho contato com ela via whatsapp. Tentei estreitar os laços nesse tempo, mas a verdade é que nunca fomos próximos. Tenho uma consideração, e até um carinho, por ter ajudado a cria-la desde criança, mas falta algo. Tem uma frieza e praticidade em tudo que ela faz que me perturba. 

As aparências - Renê Paulauskas

 Outro dia, observando uma senhora dançar forró, pensei: "eis aí uma pessoa de bem com a vida, deve ser uma pessoa legal". Minutos depois a vejo dançando com um homem bem mais novo e percebo o interesse do jovem nela. Ela passa as mãos em seu rosto e pelo gestual diz que seu acompanhante está alí ao lado. Se despedem e quando ela passa por mim, faz uma cara brava horrível me dizendo: "Você, bico calado!". Fiquei tão desconcertado que fui embora para casa. No caminho pensei: "as aparências enganam".