Uma história - Renê Paulauskas
I Jovens
Renan e seu amigo, Emerson, se conheceram numa Escola de
Arte de São Paulo onde passaram anos melhorando seus desenhos.
Emerson observa Renan escrevendo numa folha até ser toda
preenchida, pede ao seu colega para ler. Renan explica que é só um treino para
escrita em quadrinhos. Mesmo assim ele insiste. Quando pega para ler, nada faz
sentido.
Emerson mostra um tempo depois um conto gótico dele. Renan
lê e acha engraçado. Os dois se tornam amigos.
___ Renan, você não disse que já fez teatro, descobri um
lugar novo muito legal! É o Paço Municipal, lá em Santo André. Tão montando uma
ópera punk, vamos?
II Ópera Punk
Eram anos 2000, havia passado vinte anos do movimento punk,
mas vários jovens estavam ali para conhecer aquele universo. Renan entrou na
sala de ensaio observando aquelas pessoas tentando decorar seus textos e num
impulso repetiu uma fala com entusiasmo e todos se assustaram e depois
começaram a rir e assim foi aceito no grupo.
Na semana seguinte ele leva sua pasta de desenhos para
mostrar aos colegas e uma jovem japonesa, se interessa muito por seus desenhos.
Eles caminham e atrás duma escada em espiral e dão um beijo.
A jovem japonesa se chama Laís e é baixista da ópera punk. Marcam
de assistir um filme num festival de animação. Os dois entram na sala escura,
sentam e minutos depois Renan toca suas coxas, aproxima de sua cintura e
penetra na sua calça até perceber seu ventre molhado.
Passam duas semanas e o telefone da casa da mãe de Renan
toca. Ele atende, é ela, Laís, o convidando para um passeio até as cachoeiras
de Paranapiacaba.
Se encontram na estação da Luz, entram no vagão e ali,
sentem que se conhecem pela primeira vez. Chegam na estação, pegam um ônibus e
chegam a pequena vila de Paranapiacaba, coberta por uma enorme neblina cobrindo
as pequenas casas de construção inglesa do século passado. Não está chovendo,
então entram numa trilha e andam até uma cachoeira. Apesar de parecer o lugar
perfeito, não fazem sexo.
Sempre depois dos ensaios começam a andar juntos. Motéis,
sexo em lugares públicos, tudo era extensão de seus desejos.
Laís é assediada pelo diretor da Ópera Punk. Renan ao ficar
sabendo enfrenta o ex punk, que o expulsa e os dois resolvem sair da peça.
Ela mostra seu mundo. Sua banda punk, seus amigos de outras
bandas, shows punks na periferia...
Começam a viajar. Vão até a rodoviária e escolhem um destino
novo sempre a partir da sonoridade das palavras dos escritos das placas dos
ônibus. Vão a praias, cachoeiras. Acampam, dormem em motéis.
Pegam um ônibus para Trindade (MG). Chegam no acampamento
com chuva e a Lais tentando montar a barraca com TPM até sua menstruação descer.
No dia seguinte, mais calma, vão os dois procurar uma cachoeira. Se assustam no
caminho com a destruição das pedreiras do entorno até encontrar um caminho
ainda preservado até uma piscina natural com uma linda queda d´água. Entram e
começam a namorar. Até chegar um homem e serem obrigados a sair da água. Já
está escurecendo e quando anoitece o caminho de volta é guiado por milhares de
vagalumes nos canteiros do caminho que fazem brilhar os olhos dos dois
apaixonados.
Passam seis meses juntos e quando estão, cada um em sua
casa, Renan atende o telefone.
___ Oi Renan, tudo bem? Preciso muito falar uma coisa... Eu
tô gravida.
Renan pula de alegria, sente que é o dia mais feliz da sua
vida.
III Casados
Os dois descolam um apartamento e vão morar juntos. Agora
com uma cama de casal, motéis e sexo em lugares públicos, não tem mais espaço.
Com o tempo a relação vai esfriando.
___ Lá, você não vai acreditar o que aconteceu hoje na Vila
Madalena. Uma mulher pegou uma garrafa de cerveja e começou a encenar uma
felação.___ Laís sobe na janela do
quarto ameaçando se jogar do quinto andar do apartamento. Renan fica
desesperado.
Mas a filha do casal nasce, Nara. Renan está feliz, mas
estranha a falta de maternidade em sua companheira.
Perdem o apartamento. Vão morar com a mãe de Renan. As duas
não se dão bem e Laís volta pra casa de sua mãe sem avisar Renan.
Renan se desespera, arruma uma casinha de fundo próximo da
casa da sua sogra e chama Laís com sua filha pra morar juntos.
Renan acorda com o dia nascendo, arruma sua filhota contente
e a leva de carrinho até uma escolinha próxima que arrumou pra Nara. Acelera o
carrinho e ouve o riso estridente de Nara pelo caminho. Repetem isso todos os
dias.
Passam seis meses, com Renan levando sua filha pra
escolinha, a pegando na volta, dando banho e comida até a hora de fazer
caricaturas. Laís chega cansada do trabalho e os dois quase não se encontram.
Laís fala pra Renan que ficou com outra pessoa. Renan tem um
surto e coloca ela pra fora de casa.
Na manhã seguinte Laís rasga dezenas de bilhetes românticos
escritos por Renan durante o namoro; poemas, desenhos em cartas, letras de
música. Pega suas roupas e vai para casa de sua mãe.
Na semana seguinte a sogra de Renan leva Nara para morar com
ela.
IV Solidão
Sem sua esposa e sua filha, Renan, passa os dias à deriva.
Esquece de pagar o aluguel, só pagando a escolinha de Nara, que passa a ver aos
domingos.
Desregrado se perde no cotidiano caótico onde a casa fica
abandonada até aos poucos ir perdendo a razão.
Um dia chega em casa e vê a vizinha do mesmo terreno pondo
suas roupas no varal. Chega e lhe dá abraço.
___ Você entendeu tudo. Tudo. Não existem barreiras entre
nós. ___ A vizinha se recolhe assustada.
Um ano depois, assustado, se refugia na casa de seu pai. Tem
seu primeiro surto psicótico e é levado para o pronto socorro psiquiátrico
próximo da casa da mãe.
Fica internado uma semana até os antipsicóticos fazerem
efeito.
O pai de Renan paga as dívidas da casa alugada e Renan volta
a morar com a mãe.
Renan não perde o vínculo com a filha, que passa a ver aos domingos. Em relação ao amor, passa a ter uma visão desiludida da vida que irá o perseguir por muitos anos.
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