Ana - Renê Paulauskas
Ana
Os dias passam monótonos nessa prisão chamada vida. Tenho
preguiça até para sair pra rua comprar o absorvente que acabou. E a TPM já
voltou.
Estou procurando concursos, já que a vida de escritora é
mais uma fantasia. Publiquei um livro de poesia em Portugal, mas o dinheiro não
dá nem pra diarista.
Os amigos e amigas, cada vez mais distantes. Tenho preguiça,
agora beirando os cinquenta, de fazer novas amizades. É uma vida muito
solitária, confesso. Mais cercada de plantas do que gente. Elas me ouvem
melhor.
Namoro, só valeu com as poucas mulheres que amei. Apesar que
a Lígia era compreensiva demais. Mais uma mãe do que uma companheira. E a
Solange, doida demais, não tive muita paciência, durou só quatro anos. Os
homens foram um fracasso. Egóicos, inseguros, pareciam crianças mimadas que não
tive saco para criar.
Fumo, porque a vida não vale a pena. E não quero estar aqui
quando o mundo acabar.
Escrevo como forma de não enlouquecer, mas com um pé na
loucura. Caso contrário, não vale a pena viver.
Não tive filhos, o dom da maternidade não é pra todas. Acho
que seria uma péssima mãe. Controladora, egoísta. Mesmo assim gosto de
crianças, as dos outros. Adoro estraga-las, ser a tia preferida, a que dá
doces, ir pra farra com eles, mesmo a revelia das mães.
Passei por um aborto ainda jovem. Me machucou muito. Mulher
nenhuma passa por isso sem sequelas. Do trauma, ficou o receio. E do receio, a
maturidade. Depois o tempo passou e fiquei pra titia (risos). Também, não me
agrada criar um filho para suprir o desconforto da solidão. Não. Estou bem com
minhas plantas, meu cigarro, meus amigos distantes, minha mãe...
Minha mãe, está velhinha... às vezes saio da minha casa em São
Paulo, pego o carro e vou até seu apartamento em Santos. Compro um bolo na
padaria que ela gosta para tomarmos um café. Está com oitenta e nove. Ajudo ela
a andar, conversamos um pouco e vou embora.
Meu pai falecei fazem dez anos. Tive depressão por dois anos
após sua morte. Éramos muito parecidos, ele, muito mais louco do que eu. Era
roqueiro, boêmio e drogado. E apesar disso, uma ótima pessoa pra conversar.
Tinha um quê de monge budista, mais ouvia do que falava. Deixava pra gritar no
palco. Dizia que era uma encenação, que ninguém é uma coisa só. Só de lembrar
dele fico com os olhos cheios. Me faz muita falta sua partida, algo que ainda
hoje trabalho em terapias. Tão difícil achar pessoas como papai hoje em dia.
Talvez seja pelo fato que não frequento mais bares. Nem me drogo mais. Virei
uma pessoa careta, tirando o cigarro e o café.
Beijo na boca, já não sei o que é isso há sete anos.
Trepada, idem. Isso porque não sou feia, só acho que perdeu a graça. Estou
tentando achar a graça novamente (pausa). Ainda não achei (risos). Mas me
masturbo com o Joãozinho (vibrador) semanalmente, ele nunca falha. Não sei se
sou eu, ou é o mundo, não se encaixa mais.
Às vezes tenho delírios de que o mundo nunca existiu, que as
pessoas não existem, que sempre estive só. Depois de alguns dias estou melhor.
Os pássaros cantam no jardim, a filha de três anos da vizinha fala sem parar e
me sinto aliviada. Mas aquela sensação nunca vai embora totalmente. Sempre uma
porcentagem de vazio.
Por isso me resigno à essa vida esmaecida e decomposta para
que tudo se encerre brevemente. Não vou me matar, não tenho essa natureza. Só
procuro aquietar a mente dentro desse caos que é o mundo enquanto procuro um
trabalho tranquilo de funcionária pública.
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