O Ser (crônica)- Renê Paulauskas
"Ser ou não ser, eis a questão"- William Shakespeare. Tudo estava estranhamente sereno e mórbido, como se nunca tivesse existido a vida, ou fosse algo nunca visto por ele. Depois de se impor algumas vezes contra a ordem das coisas, o mundo pôs nele algumas correntes. Mesmo assim ainda era livre, e pensou numa última saída. Mas não teve coragem. Sucumbio à ordem das coisas e seu adocicado elixir. Foi mais uma vez viver a vida, tão falsa como uma puta. Pudesse não se apegar a nada, como Buda. Pudesse se entregar, como Jesus. Não fez nada disso, fingiu que nada viu e tocou o barco. Sem ter certeza de que esse gesto era seu ou manipulado de fora, se deixou conduzir como um animal domesticado e dócil. Não era mais livre, só imaginava ser. E entre resistir e o amarrarem mais uma vez naquela cama de pronto socorro psiquiátrico depois de uma injeção de socega leão, preferiu fingir de morto, em meio à projeções de rostos alegres ao som de gargalhadas estridentes como gritos de deses...