Sensações (crônica) - Renê Paulauskas
Ele não tinha ainda dissecado o texto, lera uma vez e bastou, ficou suspenso num turbilhão lembrando de coisas da própria vida. De ter visto o espírito de seu pai ao chegar no hospital para se despedir. Do amigo falecido depois de tentar morar sozinho. Da amiga doente, já com Alzheimer, aos cinquenta anos. Acreditava que sua vida estava no fim, podendo reencontrar seus camaradas em breve. Mesmo assim tocava a vida com seus parentes e amigos vivos sem ideias mórbidas. A arte de viver, era maior que todas as outras juntas. Vivia esse limbo entre os vivos e os mortos despertos em sua imaginação. Como se sonhasse acordado ou acordasse num sonho. Não tendo certeza do que de fato era feito este mundo. Às vezes pensava que tudo não passava de um sonho, tentando acordar. Outras era levado pela vida e tudo valia. Essa vida tinha sensação atrás de sensação, coisas tão diferentes. Uma hora corria como uma bica de água fresca. Outra, quase empedrava, tamanha sua densidade e caos. Tinha que li...