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Mostrando postagens de maio, 2026

Jesus - Renê Paulauskas

Pra mim, Jesus nunca foi compreendido. É como se antes da santa ceia soubesse de seu trágico fim e se entregasse a um destino fatal sem nada acrescentar.  Na santa ceia sabia e deixou claro que seria traído. Mas o que deve ter sentido, um vazio desesperançoso que fez ele à cruz se entregar, se sentindo abandonado até por Deus. Jesus não teria se entregado para salvar a humanidade de seus pecados. Pelo contrário. Teria exposto o mais duro e cruel traço dela, a traição. Assim como Sócrates, condenado injustamente, toma cicuta, mas antes faz um lindo discurso condenando quem o condenou, antes de se matar, Roma condena Jesus injustamente, em seguida é condenada. O que fica pra mim é o enorme sofrimento de Cristo diante de uma condenação injusta como de tantos outros que passaram e passam por isso sem nada poder fazer. Guardo em minha mente um Jesus livre, tentando ensinar o melhor jeito de viver em sociedade, através do amor, do perdão, do afeto. Mas a sua crucificação nos ensina como ...

Normais - Renê Paulauskas

Eu desenho desde os três anos, com dezoito ilustrei meu primeiro livro. Escrevo e componho também. Tenho mais de mil textos e quase quinhentas músicas. Mas tenho dificuldade de lidar com o ser humano. Sobretudo os normais. Tenho dificuldade de me relacionar com eles.  Mas não tem jeito, são eles que controlam o mundo. Cheios de minuciosa normalidade, que fazem sem nem sentir. E pra nós, que sentimos tudo, imita-los é o mais difícil papel. Por outro lado, sempre alguma coisa de dentro escapa, e faz barulho. Constrange. Tira o véu e mostra o que estava escondido. Não do autor do gesto, do mundo, e isso assusta. A arte nos dias de hoje tem esse mesmo papel. Já os anormais fazem como o próprio respirar. Por isso incomodam tanto.

Escravização - Renê Paulauskas

Fazendo uma brevíssima análise do povo brasileiro, formado a partir dos portugueses que escravizaram indígenas que depois foram substituídos por africanos escravizados por mais de 350 anos, destaco um aspecto. Enquanto os indígenas não se adaptaram à escravidão, por terem um modo de vida totalmente ligado à natureza de modo orgânico, fora do ritmo do trabalho forçado, os africanos e seus descendentes tiveram mais resiliência para se adaptar pela inteligência corporal, como pela música e dança, por exemplo. Talvez esse fenômeno, junto à sua resistência cultural, fez com que fosse possível aguentar o maior período de um povo escravizado na história. Com o fim da escravidão no Brasil os negros libertos não foram indenizados e passaram de escravos a marginalizados. Para suprir a mão de obra antiga, vieram sobretudo europeus. Esses se estabeleceram, enquanto os negros continuaram marginalizados em periferias e morros ocupados por barracos. Quase um século depois desse processo de fim da esc...

Olhando o céu - Renê Paulauskas

Ele que sempre fora um cético em astrologia, como uma cultura pseudo científica, se comparada a astronomia, agora despertava para a influência dos planetas, do sol e da lua na vida das pessoas. Assim como a lua influência o crescimento das plantas, nós também teríamos influência dos planetas, sol e lua no momento em que nascemos. Começou a estudar astrologia, descobriu que os babilônios, há quatro mil anos atrás ao observarem as estrelas, viam pequenos pontos que se mexiam no céu. Acreditavam eles que eram deuses que influenciavam nossas vidas. Mais tarde se descobriu que esses pontos eram planetas. Viu também como Carl G. Jung a utilizava para análise de seus pacientes. E de seu experimento com auto análises de mais de quatrocentos mapas astrais e de sua surpreendente conclusão de que a pessoa ao analisar o próprio mapa, o transforma.  Era um mundo novo e não deixaria de acreditar em outros conhecimentos como a sociologia ou a ciência, mas de certo modo se sentiu pela primeira vez...

Insignificância - Renê Paulauskas

E o cientista examinando a partícula que ora se comportava como onda, e quando observada ficava estática. Percebeu que longe dos seus olhos todas as partículas se moviam tão rapidamente até atingir os 300.000 km/s e virarem luz. E que tudo, absolutamente tudo era luz. E nossa vida uma fração irrisório aprisionada pelo espaço/tempo, como aquela partícula observada no microscópio quântico por aquele homem que nada podia fazer, se não, aceitar sua própria insignificância. Percebeu que a própria matemática só servia a espécie humana, desenvolvida a partir da contagem dos dedos gerando a base decimal. Que a definição de espaço, desde o ponto, passando pela reta, círculo e cubo, era limitada à experiência tridimensional. Que outras espécies inteligentes teriam outras bases e referências. Sendo assim, a matemática nada teria de universal. E nessas constatações, intuiu que o mundo como conhecemos não faria o menor sentido. Então abriu a porta de sua casa. E viu um passarinho comendo mamão do m...

Bexiga azul - Renê Paulauskas

Ele se sentia um corpo inexpressivo naquela cidade cheia de gente. Cada um ocupando um espaço de poucos passos naquele quadrante. Vidas. De trabalho, estudo, fisiologia, repouso e uma leve pitada de prazer. A cidade acorda às cinco da manhã com ainda poucos automóveis na rua. O sol vem e ilumina tudo. É quando realmente começa o dia. Pessoas seguem para o trabalho ou escola. Ele não. Acordava em sua sala sem saber pra onde ir. Passava os dias dentro de casa, que nem era dele. Queria ser produtivo, mas não sabia o que fazer. Se sentir útil. Temia seu fim morando nas ruas.  Quando saia tentava aproveitar o máximo o contato com as pessoas que estavam ocupadas e não percebia suas formas modais. Voltava sempre só. Uma vez saiu numa sexta feira, como todos os dias em casa. E procurou onde as pessoas estavam reunidas. Achou uma bexiga azul no caminho e brincou com ela como se fizesse contato com um ser tão livre e esquisito como ele. Naquele dia voltou pra casa feliz.

Emprego - Renê Paulauskas

Depois de ter começado a procurar emprego. A primeira vaga passou na primeira fase e foi reprovado na entrevista por não falar direito por nervosismo. Na segunda vaga, antes da entrevista, tomou uma lata de cerveja pra relaxar. Dito e feito. Passou. Disseram-lhe que a vaga era pra início imediato. Acordou cedo e viu no e-mail os documentos que precisava entregar até o meio dia. Não tinha comprovante de endereço e precisou de uma carta em punho do dono do imóvel e registrar no cartório. Já eram onze horas e procurou uma Lan house para anexar os documentos. A primeira Lan house do bairro que foi tinha virado uma lojinha para recarga de cartucho de impressora. Andou algumas quadras até a segunda, também tinha fechado. Na terceira, era outro comércio. Perguntou se sabiam onde tinha alguma aberta, disseram que tinha uma sim. Chegou às onze e quarenta e cinco. Ligou o computador e começou a enviar os documentos. Quando foi meio dia o último documento travou. O download girava e não concluía....

Esquecido - Renê Paulauskas

O homem pálido tinha medo do tempo, que ele mudasse. Também temia as coisas sem nome. Aquele amigo que desapareceu sem nada explicar. De como as coisas decantavam sem ninguém as ver. Mesmo assim extendia seus braços para que qualquer um pudesse o tocar. Fazia esse gesto muitas vezes ultimamente pra sentir que o mundo era maior do que ele.  Antes escrevia tudo em seus diários seu vasto mundo de uma vida isolada cheia de inquietações. Depois de escrever os lia como um camelo a ruminar seu alimento. Agora saia de casa pelo menos uma vez por semana para fazer teatro, essa curiosa arte por meio da imitação da vida. E sobretudo com outras pessoas. Resolvia problemas em grupo. Era como estar num prezinho novamente. Essa é a hora que tenho que pôr um conflito pra segurar o leitor. Como: até ser preso. Mas não. De fato ele nunca mais foi visto pelo pessoal do teatro. Não se sabe o que aconteceu com ele. Depois de poucos encontros foi totalmente esquecido. 

A girar - Renê Paulauskas

Como são egoicos os artistas. Por não saberem separar eles próprios de suas obras, se ofendem com críticas às suas artes como crianças. Isso, nos verdadeiros, aqueles que colocam verdade, seus sentimentos, sua visão de mundo. Mas ao mesmo tempo, esses criadores, não percebem que são fruto de sua época, influenciados pelo mundo, ordinário e corriqueiro. E que no fundo, sentem as mesmas dores, as mesmas alegrias e mesmos conflitos que a maioria das pessoas passam. Talvez o que os diferenciam seja o modo como expressam a vida. Esse processo interno de cavar dentro coisas e as por pra fora seja desenhando, escrevendo, fazendo música etc. Existem também outros tipos de artistas. Que invés de cavarem dentro, buscam suas referências fora. Para esses copiar é parte do processo até desenvolver um estilo próprio. Existem ótimos artistas assim. Talvez esses não se confundam com suas obras. Nem se sintam ofendidos quando as criticam, não sei. Sei que a arte é livre para ser feita como queiram. Que...