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Mostrando postagens de junho, 2026

Toada (crônica) - Renê Paulauskas

Eu que via os homens em fila, ordenados, compassivos, e dizia, não! Não a costura cirúrgica da civilização. Sua organização sistemática, higiênica e fragmentada. Mesmo assim, contava nos dedos, os carros que passavam, suas cores, no colo do meu avô. E cresci oblíquo, meio pra dentro. Como se extraisse raízes e cuspisse folhas. Até gritar e desfazer, camada por camada, até ser outro ser. Hoje vejo eu atrás da fila. Seguindo como todos. Esperando minha vez, como todos nessa toada. Um a um em sua jornada, de febris inquietações.

Travessia (poema) - Renê Paulauskas

A vida é  Ponte sem atravessar por inteiro  Argamassa que acaba Estrutura abandonada  Novo caminho e estrada

Devido lugar (conto)- Renê Paulauskas

Estava tudo no seu devido lugar. Família, bem. Amigos, bem. Colegas, ok. Mas alguma coisa tinha mudado, não sabia direito o quê. Uma sensação de que nada se encaixava como antes. Era algo dentro dele, uma espécie de angústia. Talvez por já estar tanto tempo aqui, quase meio século. Ou por nunca ter acreditado na espécie humana e se sentir mais cansado.  Via através de seu círculo social coisas tão descabidas e sem sentido que o fez pensar: "se o ser humano é falho até entre seus melhores, que dirá com os outros". E pela primeira vez achou inútil pensar sobre tudo isso, sendo que não havia uma solução. Estava envelhecendo de fato. Mentalmente. Até pensou em adotar uma outra espécie de animal, que não a humana. Mas acabou resolvendo ficar só. Não ligava mais pra sua filha. Nem mandava mensagens pra sua irmã mais nova. Só falava o essencial com sua mãe. Ficou um longo tempo sem falar com ninguém. Uma semana passou. Um mês. Três meses. Se sentia mais leve. Como se andasse menos a...

Dois graus a menos (conto)- Renê Paulauskas

Ele, estendido sobre a cama, se escondendo embaixo de duas cobertas, ainda vivia depois de tudo. Depois do luto da sua grande amiga. Do fim da amizade com seu melhor amigo. Da doença deflagrada do surto por não aguentar a separação da sua amada. Da sua mente cindida e perdida depois da violação na infância. Respirava ainda quente, dois graus mais frio que um corpo normal. O riso solto perderá ainda na primeira infância, depois do abuso infantil. Se tornara retraído e inseguro. Muito diferente do garoto solto e sorridente, às vezes arteiro e confiante. Por isso mesmo perdeu a virgindade tarde, com uma mulher mais velha que o levou ao motel com dezoito anos. Em seguida começou a namorar uma garota do cursinho, que o traiu. Foram meses de depressão. Depois se recuperou e conheceu a mulher da sua vida. Ainda jovens, ela era corajosa e confiante, e tiveram uma filha. Um ano e meio depois ela lhe conta que tinha ficado com outro homem. Ele não aguenta e tem um surto que deflagra uma doença p...

Pleroma - Renê Paulauskas

Ninguém vence o sistema, mas é possível modificá-lo parcialmente. Nem mesmo o amor incondicional é capaz de vencê-lo, pois o sistema é formado, em parte, por seres que não tem sentimentos, mas fingem ter. Essa ilusão, proposital, deixa o sistema invencível, uma vez que não se pode confiar nele, e desconfiado se fica ainda mais fraco. É possível, sim, enganar o sistema uma vez ou outra, não o tempo todo. Afinal somos seres sensíveis de carne e osso. Assim, se faz necessário uma negociação entre seus desejos e o sistema. Que está o tempo todo em toda parte. Se entregar totalmente à ele é escravidão. Não entregar nada é suicídio. De qualquer forma ele vence. Mas sempre terá alguma coisa interna que você carregará. Essa coisa diminuta ninguém poderá mexer. E é com essa ferramenta que irá sobreviver. 

Vó Neuza - Renê Paulauskas

Quando cheguei aqui não tinha luz. Tive que tomar banho frio. Só ligaram a energia no sexto dia e no domingo a gente descansou.  Eu morava numa casa com cinco quartos na Vila Romana, pertinho da Vila Ipojuca. Um casarão. Minha mãe faleceu quando eu tinha seis anos. Foi depois disso que tudo mudou. Meu pai se casou de novo. Minha madrasta virou a dona da casa e eu, sua empregada. Ele era bem falado pelo bairro. Homem enorme. Forte como um touro. Bonito. E nos casamos rapidamente.  Eu já tinha surtado e minha família achou que seria uma solução eu sair de casa. Tive três filhos. O Ricardo, meu preferido. A Ciça, a mais levada. E a caçula, que chamei de Sílvia, a mais bonita. Ele, veio da Lituânia. Seu nome: Kazys, que sua mãe o chamava Kajucs e no bairro ficou conhecido como Caju. Fez todo tipo de promessa pra me curar. Caminhou da nossa casa até Santos. Foi até Aparecida do Norte. Fez até trabalho de umbanda. Mas não tinha cura. Fui diagnosticada como sendo maníaco depressiva. ...