Devido lugar - Renê Paulauskas

Estava tudo no seu devido lugar. Família, bem. Amigos, bem. Colegas, ok. Mas alguma coisa tinha mudado, não sabia direito o quê. Uma sensação de que nada se encaixava como antes.

Era algo dentro dele, uma espécie de angústia. Talvez por já estar tanto tempo aqui, quase meio século. Ou por nunca ter acreditado na espécie humana e se sentir mais cansado. 

Via através de seu círculo social coisas tão descabidas e sem sentido que o fez pensar: "se o ser humano é falho até entre seus melhores, que dirá com os outros".

E pela primeira vez achou inútil pensar sobre tudo isso, sendo que não havia uma solução. Estava envelhecendo de fato. Mentalmente.

Até pensou em adotar uma outra espécie de animal, que não a humana. Mas acabou resolvendo ficar só.

Não ligava mais pra sua filha. Nem mandava mensagens pra sua irmã mais nova. Só falava o essencial com sua mãe. Ficou um longo tempo sem falar com ninguém.

Uma semana passou. Um mês. Três meses. Se sentia mais leve. Como se andasse menos ansioso. Não estava curado de sua mente inquieta, mas um pouco mais calmo.

Sabia que não conseguiria mudar o mundo. No entanto, não tinha se curvado a ele. Seria esse seu lugar. Mas esqueceu de sentir-se presente. De rir de coisas inúteis. De falar bobagens. Ficou mudo sem mudar o mundo.

Até certo dia, quando caminhava na rua de sua casa, um vira-lata começou a brincar com ele. Passava pelo meio de suas pernas, com a boca faminta de língua de fora. Apoiava suas patas sujas em suas calças. E foi o seguindo até ele chegar em casa.

O homem abriu a porta e subiu pra sua casa com ele. Pegou um pedaço de frango com arroz e pois pra ele comer. O cachorro comeu em segundos e o homem pegou uma jarra d'água pro animal. Com o homem abaixado o cão deu três lambidas em seu rosto o fazendo soltar uma gargalhada nervosa até desprender o riso. E ficaram à tarde trocando carinho e cuidando um do outro.

Depois o homem percebeu que era uma vira-lata. Deu nome de Preta. E saiam todas as manhãs para passear. O homem voltou a sorrir. E achou o sentido da vida naquela relação com sua cachorra.


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