No parque (conto) - Renê Paulauskas
Sentado no parque próximo dos senhores tocando e cantando música caipira, percebeu que aquele canto era de lamento. Um lamento com harmonia que contava longas histórias, na maioria, de amor. Se sentiu vivo ouvindo os senhores cantando e tocando como passarinhos de tão afinados. Pensou no incrível mimetismo dos seres humanos. E de como a música lhe fazia bem. Em como essa harmonia lhe fazia falta.
Depois da magia tudo dissipa e para no ar como se faltasse energia, movimento, vida. Era esse o tranco de sua vida. Sentir tudo e nada. Não sabia se era da sua personalidade ou não. Sabia que tinha que lidar com esse branco. E quando sentia, eram só engrenagens em movimento, mecânicos. E dissecava suas rotas ordinárias até ficar entediado. Então criava.
Criava fórmulas matemáticas para adaptar a matemática decimal em outras bases, caso um dia, faríamos contato com seres de mais ou menos dedos, mesmo não acreditando nisso. Analisava o funcionamento dos sonhos e descobria curiosidades sobre sua alteração da percepção e seu impacto após acordar. Era muito criativo e conseguia descobrir muitas coisas sozinho.
Desconfiava se esse mundo é realmente o que parece. Tinha uma ideia de gnosticismo entranhada em seu ser. Por isso era muito sozinho. Mesmo com seus amigos e família, tinham coisas que não revelava a ninguém. Ou não confiasse. E não tinha problemas com isso. Imaginava os outros também com essa película. Pelo menos neste mundo.
E percebeu que o mundo era algo tão ou mais complexo que ele, e se sentiu aliviado. Recordou aqueles cantores no parque, sua harmonia... Não eram só aquilo. Eram pessoas com histórias que se confundiam com as que cantavam. Histórias de desencontros, às vezes trágicas. Todos ali unidos pela música, em lamentos que faziam sentido nas suas vidas, tocando até em seus segredos.
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