Vó Neuza - Renê Paulauskas
Quando cheguei aqui não tinha luz. Tive que tomar banho frio. Só ligaram a energia no sexto dia e no domingo a gente descansou.
Eu morava numa casa com cinco quartos na Vila Romana, pertinho da Vila Ipojuca. Um casarão.
Minha mãe faleceu quando eu tinha seis anos. Foi depois disso que tudo mudou. Meu pai se casou de novo. Minha madrasta virou a dona da casa e eu, sua empregada.
Ele era bem falado pelo bairro. Homem enorme. Forte como um touro. Bonito. E nos casamos rapidamente.
Eu já tinha surtado e minha família achou que seria uma solução eu sair de casa.
Tive três filhos. O Ricardo, meu preferido. A Ciça, a mais levada. E a caçula, que chamei de Sílvia, a mais bonita.
Ele, veio da Lituânia. Seu nome: Kazys, que sua mãe o chamava Kajucs e no bairro ficou conhecido como Caju. Fez todo tipo de promessa pra me curar. Caminhou da nossa casa até Santos. Foi até Aparecida do Norte. Fez até trabalho de umbanda. Mas não tinha cura.
Fui diagnosticada como sendo maníaco depressiva. Me levaram em hospitais psiquiátricos onde, fora a morte de mamãe, foram os piores dias da minha vida. Me deram choque, banho frio e me isolaram do meu marido e meus filhos.
O resto da família eu nunca mais vi. Compraram minha parte da casa de papai por preço de banana. E moro nessa casa velha caindo aos pedaços.
Os filhos, também foram crescendo e me abandonando. Primeiro o mais velho. Depois a caçula e quem voltou foi ela que cuida de mim. Ela me obriga a tomar banho dia sim, dia não. Limpa mais ou menos a casa. E pede uma pizza às sextas feiras com meu dinheiro.
Agora estou cansada. Vou deitar um pouco no sofá. Dessa vez não precisa ligar a TV. Quero ficar no escuro. Faz tempo que não durmo assim. Mas peço que segure minha mão. Até eu dormir profundo. Até.
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