Dois graus a menos - Renê Paulauskas

Ele, estendido sobre a cama, se escondendo embaixo de duas cobertas, ainda vivia depois de tudo. Depois do luto da sua grande amiga. Do fim da amizade com seu melhor amigo. Da doença deflagrada do surto por não aguentar a separação da sua amada. Da sua mente sindida e perdida depois da violação na infância.

Respirava ainda quente, dois graus mais frio que um corpo normal. O riso solto perderá ainda na primeira infância, depois do abuso infantil. Se tornara retraído e inseguro. Muito diferente do garoto solto e sorridente, às vezes arteiro e confiante.

Por isso mesmo perdeu a virgindade tarde, com uma mulher mais velha que o levou ao motel com dezoito anos. Em seguida começou a namorar uma garota do cursinho, que o traiu. Foram meses de depressão. Depois se recuperou e conheceu a mulher da sua vida. Ainda jovens, ela era corajosa e confiante, e tiveram uma filha. Um ano e meio depois ela lhe conta que tinha ficado com outro homem. Ele não aguenta e tem um surto que deflagra uma doença psiquiátrica.

De verdadeiro só sobrou as amizades, que nasceram, se aprofundaram, e morreram. As mais intensas por pouco mais de uma década. Como agora de seu amigo. As mais distantes preservadas e encerradas pela morte, literalmente.

Ainda na cama, só conseguia sentir que ainda estava vivo. Dois graus mais frio, mas vivo. Que ainda tinha sua filha, agora adulta. Sua mãe ainda viva e presente. Que o processo de envelhecer é um constante subtrair de coisas e afetos. Mas estava bem.

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