Filha - Renê Paulauskas
Ultimamente sinto quase uma dor de cabeça quando vou falar com minha filha. Não quero dizer que ela me dê trabalho, sempre foi uma filha muito responsável, às vezes ficava até preocupado se estava curtindo a vida além das obrigações. Mas agora ela tem vinte e cinco anos e não posso mais falar com ela como se fosse uma menina, é uma mulher.
Lidar com um ser adulto é muito mais complexo. Temos que dar espaço a eles, mesmo que quebrem a cabeça. É o processo, só assim aprendemos.
E sentimos uma saudade de nossos filhos pequenos. Tão dependentes e lisos de traços de maturidade. Mas os criamos para o mundo, mentira! Mas quando crescem não há nada que possamos fazer. E só nos resta dar nosso apoio, nem que seja à distância.
Minha filha cresceu, já não tenho mais muita utilidade nesse mundo. Vou tentar curtir os últimos tempos da melhor maneira. Mas sei que estou livre de maiores compromissos e obrigações. Bem na verdade, tudo me parece um tanto esmaecido e sem propósito. Como se a vida acabasse aos cinquenta e eu agora com quarenta e sete.
Os amigos ainda dão muito prazer. A mamãe que vive comigo. Tudo isso ainda me dá forças. Não acredito mais em propósito. A arte que construí passou despercebida. Vivi o melhor que pude sendo sincero e honesto. Errei, como todos, mas me arrependo e acredito que melhorei. Tudo isso se tratando do meu transtorno bipolar.
Acho que posso curtir os últimos tempos da melhor maneira sem maiores remorsos ou preocupações. E sobre minha filha, sabendo de seu caráter, acho que terá uma vida muito boa.
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