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Mostrando postagens de agosto, 2026

Sensações (crônica) - Renê Paulauskas

Ele não tinha ainda dissecado o texto, lera uma vez e bastou, ficou suspenso num turbilhão lembrando de coisas da própria vida. De ter visto o espírito de seu pai ao chegar no hospital para se despedir. Do amigo falecido depois de tentar morar sozinho. Da amiga doente, já com Alzheimer, aos cinquenta anos. Acreditava que sua vida estava no fim, podendo reencontrar seus camaradas em breve. Mesmo assim tocava a vida com seus parentes e amigos vivos sem ideias mórbidas. A arte de viver, era maior que todas as outras juntas.  Vivia esse limbo entre os vivos e os mortos despertos em sua imaginação. Como se sonhasse acordado ou acordasse num sonho. Não tendo certeza do que de fato era feito este mundo. Às vezes pensava que tudo não passava de um sonho, tentando acordar. Outras era levado pela vida e tudo valia. Essa vida tinha sensação atrás de sensação, coisas tão diferentes. Uma hora corria como uma bica de água fresca. Outra, quase empedrava, tamanha sua densidade e caos. Tinha que li...

Filha - Renê Paulauskas

Ultimamente sinto quase uma dor de cabeça quando vou falar com minha filha. Não quero dizer que ela me dê trabalho, sempre foi uma filha muito responsável, às vezes ficava até preocupado se estava curtindo a vida além das obrigações. Mas agora ela tem vinte e cinco anos e não posso mais falar com ela como se fosse uma menina, é uma mulher. Lidar com um ser adulto é muito mais complexo. Temos que dar espaço a eles, mesmo que quebrem a cabeça. É o processo, só assim aprendemos. E sentimos uma saudade de nossos filhos pequenos. Tão dependentes e lisos de traços de maturidade. Mas os criamos para o mundo, mentira! Mas quando crescem não há nada que possamos fazer. E só nos resta dar nosso apoio, nem que seja à distância. Minha filha cresceu, já não tenho mais muita utilidade nesse mundo. Vou tentar curtir os últimos tempos da melhor maneira. Mas sei que estou livre de maiores compromissos e obrigações. Bem na verdade, tudo me parece um tanto esmaecido e sem propósito. Como se a vida acabas...

Impressões (crônica)- Renê Paulauskas

A juventude é preenchida pela vida e seus escritos são impressões desses dias cheios em que rabiscamos na areia antes de nos fartar no mar. Já os escritos da maturidade trazem a experiência da vida nos olhos, certezas e desilusões que orientam nossos passos. Pouco posso falar desse vasto pequeno mundo, sua lógica e loucura. Cabe a mim parcas impressões. A natureza vil em sua busca desenfreada em sobreviver e os espaços vazios preenchidos pelos desejos. Do outro lado a falha dessas mesmas engrenagens, não por desgaste, por desconstrução. Congeladas no tempo e desmontadas no espaço. Quando se percebe que há algo mais, que junta todas as peças, essa cola cósmica que nada tem a ver com a matéria. Mesmo assim continuamos presos à gravidade e todas as exigências do corpo. Sentimos fome, sede, sono, desejos. Nos perdendo dentro como em uma caverna. É esse o drama humano. E fugimos. Através da imaginação para todos os lados possíveis. Criando, nos relacionando, experimentando. Tudo pra sair da...

Velho - Renê Paulauskas

Com a idade as relações de afeto vão se extinguindo gradualmente. Infelizmente parece que o natural é o ser humano ir se isolando até morrer. Me deparo com a meia idade, onde a vida conjugal já não existe há quase uma década e as amizades estão quase extintas. É nesse cenário desértico, onde ainda tenho o afeto da família e de poucos amigos, que começo a pensar em como sobreviver nesse mundo já pela metade. E começo a aceitar a falta do agito mesmo gostando dele. Assim como a conformação de nunca mais viver um romance, apesar de ser romântico.  É um processo de fora pra dentro, porque no íntimo, somos ainda jovens. Mas nos vêem como velhos. Isso bem antes de sermos velhos, a partir dos quarenta anos. Ainda não tenho nem cinquenta anos e estou passando por essa crise. Tenho energia, saúde, criatividade e sanidade, só não tenho iniciativa. Não gosto de sair só. Não vejo motivo para fazer nada sozinho. A não ser ir no cinema, num show, uma exposição. Mas sempre achei o grande barato d...