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Mostrando postagens de setembro, 2026

A Robô (crônica) - Renê Paulauskas

Sou um aposentado morando sozinho. Nas horas vagas gosto de fazer músicas.  O sistema me presenteou com uma robô multi tarefas para me auxiliar no dia a dia, já que moro sozinho e não tive filhos. A robô faz tudo de modo perfeito. Após terminar o trabalho ela mesma se carrega até o próximo dia. Um dia, enquanto compunha uma música nova, ela a reproduziu com uma voz feminina perfeita que me deixou encantado. Comecei então a compor pra ela. Senti pela primeira vez minhas composições terem vida e que aquele hobby poderia ser algo mais. Cheguei a compor mais de cem músicas pra ela cantar, e comecei a pensar em alguns shows. Procurei lugares onde ela poderia se apresentar. Vi como funciona o esquema de apresentação em teatros e casas de show, até conseguir uma vaga para dez apresentações. Estava tudo marcado, as músicas ensaiadas, na ordem correta de quinze músicas minhas para enfim ser conhecido pelo grande público. No dia em que estávamos retirando a robô de casa, ela desligou e não l...

Coisas básicas (ensaio)- Renê Paulauskas

Quando milênios atrás as pessoas tinham a idéia de que os Deuses existiam, e para tirar a monotonia de suas vidas eternas, brincavam com nossas vidas, fazendo apostas, intrigas, etc. Estávamos mais próximo da verdade. A ciência ignorou a existência de um Deus monoteísta, que dirá dos Deuses gregos, africanos ou até mais antigos. Eles ficaram circunscritos ao universo religioso. Mas como explicar o funcionamento do inconsciente coletivo de Jung para uma criança? Ou a máxima de Jesus "não faça aos outros o que não queres que te façam"? O inconsciente, segundo Freud, seria onde tudo fica guardado na nossa mente, independente de sua consciência. O inconsciente coletivo, seria onde tudo fica guardado de todas as pessoas, podendo ser acessado por algumas em casos especiais. Surtos psicóticos tem esse poder. E não sou eu que estou falando. Basta assistir o documentário "Imagens do Inconsciente" do diretor Leon Hirszman sobre o trabalho da Nise da Silveira com os pacientes ...

Manifesto invertido (discurso) - Renê Paulauskas

O avesso do mundo é ser vigiado por todos e não poder dizer o que pensa, sente ou imagina. É a forma mais cruel de viver a vida, a subordinação absoluta. A normalização das coisas pela média. O equilíbrio raso longe do conflito. O mundo perfeito e medíocre. Sendo que pelo menos metade da população tem ou vai ter algum transtorno mental ao longo da vida e ter pensamentos, sentimentos e uma vida totalmente fora desses tipos ideais de supostas vidas humanas. Que mais servem como placas ou regras do que fazem algum sentido. É preciso que haja uma expressão genuína de cada ser dentro de seu espectro, doente ou não, para preencher as lacunas criadas pelo padrão e sua normalização que apaga as formas mais autênticas de existir. Temos que quebrar as armaduras que travam a liberdade de nos movimentarmos naturalmente. É assim, nesse constante exercício, nos achar e caminhar pra algo que realmente faça sentido, e não que tenha apenas lógica. O que proponho é que escrevam seus sentimentos mais abs...

O Ser (crônica)- Renê Paulauskas

"Ser ou não ser, eis a questão"- William Shakespeare. Tudo estava estranhamente sereno e mórbido, como se nunca tivesse existido a vida, ou fosse algo nunca visto por ele.  Depois de se impor algumas vezes contra a ordem das coisas, o mundo pôs nele algumas correntes. Mesmo assim ainda era livre, e pensou numa última saída. Mas não teve coragem. Sucumbio à ordem das coisas e seu adocicado elixir. Foi mais uma vez viver a vida, tão falsa como uma puta. Pudesse não se apegar a nada, como Buda. Pudesse se entregar, como Jesus. Não fez nada disso, fingiu que nada viu e tocou o barco.  Sem ter certeza de que esse gesto era seu ou manipulado de fora, se deixou conduzir como um animal domesticado e dócil. Não era mais livre, só imaginava ser. E entre resistir e o amarrarem mais uma vez naquela cama de pronto socorro psiquiátrico depois de uma injeção de socega leão, preferiu fingir de morto, em meio à projeções de rostos alegres ao som de gargalhadas estridentes como gritos de deses...