A Robô (crônica) - Renê Paulauskas
Sou um aposentado morando sozinho. Nas horas vagas gosto de fazer músicas.
O sistema me presenteou com uma robô multi tarefas para me auxiliar no dia a dia, já que moro sozinho e não tive filhos.
A robô faz tudo de modo perfeito. Após terminar o trabalho ela mesma se carrega até o próximo dia.
Um dia, enquanto compunha uma música nova, ela a reproduziu com uma voz feminina perfeita que me deixou encantado.
Comecei então a compor pra ela. Senti pela primeira vez minhas composições terem vida e que aquele hobby poderia ser algo mais.
Cheguei a compor mais de cem músicas pra ela cantar, e comecei a pensar em alguns shows.
Procurei lugares onde ela poderia se apresentar. Vi como funciona o esquema de apresentação em teatros e casas de show, até conseguir uma vaga para dez apresentações.
Estava tudo marcado, as músicas ensaiadas, na ordem correta de quinze músicas minhas para enfim ser conhecido pelo grande público.
No dia em que estávamos retirando a robô de casa, ela desligou e não ligava mais. Liguei pra assistência técnica e disseram que a robô está programada pra só funcionar dentro de casa. Surtei.
Comecei a xingar a robô, dando ponta pés e socos que machucaram minhas mãos. A empurrei da escada da cozinha, donde caiu, ficando em pedaços.
Substituíram os restos da antiga robô por uma nova, que não interpreta música. E eu parei de compor com frequência, me acostumei a vida ordinária em silêncio.
Às vezes lembro da voz afinada dela, de como poderíamos ter sido felizes juntos. Mas pelo visto, não estávamos fadados a tanto.
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