O Ser (crônica)- Renê Paulauskas

"Ser ou não ser, eis a questão"- William Shakespeare.

Tudo estava estranhamente sereno e mórbido, como se nunca tivesse existido a vida, ou fosse algo nunca visto por ele. 

Depois de se impor algumas vezes contra a ordem das coisas, o mundo pôs nele algumas correntes. Mesmo assim ainda era livre, e pensou numa última saída.

Mas não teve coragem. Sucumbio à ordem das coisas e seu adocicado elixir. Foi mais uma vez viver a vida, tão falsa como uma puta.

Pudesse não se apegar a nada, como Buda. Pudesse se entregar, como Jesus. Não fez nada disso, fingiu que nada viu e tocou o barco. 

Sem ter certeza de que esse gesto era seu ou manipulado de fora, se deixou conduzir como um animal domesticado e dócil. Não era mais livre, só imaginava ser. E entre resistir e o amarrarem mais uma vez naquela cama de pronto socorro psiquiátrico depois de uma injeção de socega leão, preferiu fingir de morto, em meio à projeções de rostos alegres ao som de gargalhadas estridentes como gritos de desespero e aflição. 

Ele estava velho, mesmo jovem, teve que se curvar. Tomava quatro miligramas de risperidona. Duas para controlar os delírios, duas para a agressividade. Ele mesmo pedira para aumentar de duas para quatro miligramas, por pensar em sua mãe, para não brigar com ela.

Apanhara de um amigo dez anos mais novo, tirando o que sobrava de sua agressividade. Pacificado pelo medo. Não lhe restava muita coisa. A filha já grande, independente. Viveria o resto dos seus dias, uma vida de merda. E com grande ironia, aceitou. Por não ter opção, mas sabendo que tudo aquilo era uma grande representação. E que partiria em breve.

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