Trauma - Renê Paulauskas

Nos primeiros anos de vida organizava seus brinquedos por ordem de cor e tamanho. Fazia uma fileira de carrinhos, dos menores aos maiores separados por azul, amarelo e vermelho.
Então veio a pré escola, o prezinho. No primeiro dia, levado por sua mãe, depois de alguns segundos de a ver ir embora, começou a chorar. Até uma colega, uma menina da sua idade perguntar por que ele estava chorando. E ele olhou em volta aquele enorme pátio, cheio de crianças brincando, e começou a se soltar.
Ia todos os dias feliz da vida para o prezinho. Seu pai, antes de o levar, mostrava coisas interessantes, como o álcool pegando fogo ou como fazer fogo com uma lente através do sol.
Foi no prezinho que aprendeu a se relacionar com outras crianças. Tinha uma coleção de borrachas com cheiros. Uma vez um colega as pegou e não as queria devolver. Furou a mão dele com um lápis. Vieram professores, chamaram as mães. Mas no final deu tudo certo.
Outra vez levou um ataque de balde de areia. Ficou uma semana tirando areia dos olhos.
Foi numa aula que quando foi pegar uma borracha caída embaixo da carteira, uma colega agachou e lhe deu um primeiro beijo. E em seguida, outra colega desceu pra baixo da mesa e ele a beijou.
Foi no pátio que teve sua primeira longa conversa com uma menina e teve a sensação de gostar dela, mas nunca mais a viu.
Também de uma roda ser feita em volta de uma menina que mostrava seu sexo para outras crianças até a professora intervir.

II

Ele descobria coisas, estava confiante com seus seis anos.
A casa do vizinho do lado esquerdo em direção a rua era cheia de árvores frutíferas. Amoreiras, morangos, parreiras, goiabeiras. Do outro lado morava um adolescente que brincava com outras crianças menores. Atravessou o terreno do vizinho até a casa do jovem que junto de seu amigo o puxaram para brincar.
Não vou dizer o que houve dentro da casa. Sei que ele chorou copiosamente até chegar um adulto e o levar para sua casa.
Foi ali que teve a sensação de ter morrido e de não poder mais confiar em outros maiores do que ele.
Logo fez sete anos e seu pai sem saber convidou os dois adolescentes para o seu aniversário. Foi a pior festa da sua vida.

III

Começou a escola. Tudo estava diferente. As aulas eram monótonas e sem sentido. Quase repete o primeiro ano. Mas passa.
Demora uns quatro anos até fazer sua primeira grande amizade no bairro enquanto andava de bicicleta.
Fora andar de bicicleta, jogavam bola pelo bairro, empinavam pipa, e jogavam vôlei. Gostava muito de desenhar e estudava numa escola de desenho do bairro muito boa.
Às vezes encontrava um dos adolescentes agora quase adultos e uma vez foi brigar com um deles que o quebrou seu nariz.

IV

Foi crescendo com um nariz enorme e quebrado e com problemas pra respirar até entrar na faculdade e fazer uma cirurgia para corrigir.
Namorava uma moça que estava grávida de um filho seu e foram morar juntos.
Parecia estar dando tudo certo até descobrir que ela estava o traindo.
Ele não conseguiu se segurar e tiveram a pior noite da vida deles.
Um ano depois descobriu que tinha transtorno bipolar.
Foi um longo tempo até controlar a doença e voltar a confiar em pessoas novamente.

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