Aos mestres e doutores - Renê Paulauskas

O ser humano sempre foi um animal alienado. A prova disso é que a maioria de nós utiliza aparelhos como celular, geladeira, microondas, TV etc, sem saber como essas máquinas funcionam. E nem por isso deixamos de usar.

Com a política é a mesma coisa. Preferem se distanciar de vez de algo que nunca entenderam. E acham melhor acreditar em teorias mais simples, como terraplanismo e outras.

Acredito que sempre foi assim. Mesmo a revolução Russa em 1919, não aconteceu por consequência simples das ideias marxistas, e sim, por um movimento antiquizarista e o apoio dos soldados russos depois da primeira guerra.

Voltando ao tema da alienação, temos que entender que algumas linguagens complexas como a própria ciência e a política não são acessíveis para grande parte da população. Assim como a própria filosofia é para a maioria de nós. E preferimos pensar que somos livres pensadores em vez de encarar os grandes filósofos e sua linguagem hermética.

O próprio sistema político representativo, diferente do sistema político direto e participativo, afasta a maioria da vida política. Discursos como "tudo é política" aparecem como arrogantes num contexto onde as pessoas simples nunca estudaram ciência política nas escolas.

Em resumo, as discussões políticas ficam sempre nos mesmos grupos, e quando tentam expandir para outros terrenos já estão carregados de uma linguagem que não faz sentido para quem é de fora.

Paulo Freire ensinou que a própria alfabetização tardia deve criar uma consciência de vida. Consequentemente uma consciência de classe e política. Nesse processo os educadores simplesmente ajudam os educandos a percorrer esse caminho de se libertar através da conscientização de seus próprios universos.

Existem vários caminhos. Há o do estudante, há o  do auto didata, e existem muitos outros. A esquerda exclui a maioria deles ao pautar somente o mestre ou doutor, em seus discursos, como se fossem os únicos depositários de saber. E depois não entende porque as pessoas não se interessam por "política".

Sócrates foi considerado o homem mais sábio da Grécia Antiga por ser o mais curioso. "Só sei que nada sei" mostra sua postura de sempre estar aberto a conhecer mais. Vejo o contrário na maioria das pessoas com doutorado, que se tornam especialistas em um único assunto, totalmente fechadas a novas formas de pensar.

Talvez na arte seja diferente, quanto mais se desbrava, mais se valoriza o simples, nunca excluindo o gestual livre, onde o desenho da criança é o maior em potencial. Mas às vezes um artista desenha a vida inteira para uma pessoa com mestrado falar que "ele desenha como uma criança" como se fosse algo censurável.

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