Antigo Rei - Renê Paulauskas
Esse mundo, nunca foi tão vasto como agora. E eu, humano e
frágil. Destitui-me dos poderes de rei, depois de vinte anos, por perder o
vigor, agora próximo à meia idade. E garanto a vocês, ter tudo é como nada ter,
uma vez que quando não se tem limite, tudo fica pequeno. Esse privilégio me
corroeu por décadas. E agora que declinei meu trono, vou viver uma vida
simples, monástica, sem luxo ou regalias. Sentir o mundo do outro lado, do lado
do povo.
Tenho um pouco de medo de não ser mais ouvido como antes, ou
respeitado. De perder as poucas relações que criei durante meu reinado. Minha mulher,
meus filhos, meus amigos. Se serão todos fiéis a mim como sempre foram. E se
caso me aconteça alguma traição, se serei forte o bastante para me reerguer
diante da devastação.
Mas são só ideias, pra esse novo mundo, que não posso mais
controlar. Agora tudo me parece pequeno no seu fazer e imenso na sua
possibilidade. Como um gesto a dominar o todo. Não por decreto, mas por
trabalho. Trabalho como nunca trabalhei.
E sinto que posso me aproximar enfim das classes mais
baixas. Tão invisível quanto elas. E sentir-me ao lado delas como sempre quis. Não
para salvá-las, para ouvi-las. E se muito, dar um conforto humano, como alguém
que se sensibiliza, mas não tem muito o que fazer.
Estou ansioso pra sair às ruas. Passear sem seguranças. Conhecer
as coisas desse novo ângulo. Se serei morto, Invisibilizado, ou se terei
sucesso, ninguém sabe. Por isso mesmo abdiquei. Para que o mundo se mostrasse a
mim como há muito tempo não se mostrava. Desde que era um jovem frágil.
Muito antes de ser rei, era tímido. Me escondia nos livros e
gostava das artes. Passava horas desenhando em meu quarto. Criava histórias,
que não encenava, como minha irmã. Gostava mesmo de criar. Como os escritores. Escrevia
versos, às vezes me aventurava a fazer alguma canção. Coisas que depois do trono
foram ficando de lado com o tempo.
Nunca fui muito bom com a espada. Mas como rei, nunca
precisei usar do próprio punho. Já no xadrez, tive que me dedicar. Saber as
estratégias de como jogar. Assim como os estudos de Maquiavel, que odiava. E assim
fui sucumbindo de meus desejos para ser um político, que representava mais as
elites do que o povo. Como sempre, as elites.
As mesmas que se acostumam ao poder, que já nascem com privilégios, que se acham especiais. É desses que quero distancia agora. De sua visão deturpada, de viverem mais de teorias do que práticas. De saberem de tudo e na verdade não saberem o que é viver. Por serem adestrados à uma vida regalias e privilégios que jamais conseguiriam abdicar.
São quase seis da manhã de um novo dia. Me desejem sorte. Não
ao seu antigo rei, mas a um novo homem que destituiu seu poder pra mais uma vez
se sentir livre. Com todas as provações e possibilidades que uma vida simples
pode dar. E vivam comigo essa vida.
Observação: Depois dessa carta o antigo rei foi considerado fora das faculdades de sua razão e foi preso em um dos seus domicílios até seus últimos dias de vida.
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