Nova Era - Renê Paulauskas
No período da grande crise climática, responsável pela
aniquilação da maioria das espécies animais e vegetais do planeta, duas forças
políticas principais nortearam o mundo. De um lado os negacionistas, puxados
por Estados Unidos e parte da Europa, continuando utilizar derivados do
petróleo, emitindo dióxido de carbono. E do outro lado a China e os países do
Sul Global utilizando novas formas de energia renováveis, como a solar.
Esse misto de forças divididas num mesmo planeta fez com que
o mundo sucumbisse numa atmosfera de grande aniquilação. Temperaturas extremas
beirando a 50 graus centígrados, quando a maioria dos animais resiste a 40
graus, fez o ser humano se isolar do clima.
Países ricos projetaram longos canais subterrâneos isolados
do calor e do frio, a depender de cada clima. Países pobres sofreram a
devastação, que ao longo de dez anos, deixou inválida a vida em várias partes
do globo.
Desesperados com a situação, um grupo conhecido como
´´Ciência Para o Progresso`` vendia aos ricos uma saída dessa realidade.
Capsulas ligadas a uma inteligência artificial projetadas para o corpo humano
viver em um estado de dormência e estimulação cerebral durante décadas.
Uma realidade artificial alimentava a mente das pessoas
presas a essas capsulas que depois de entrar não conseguiam sair. Mas com a
garantia que após o período da aniquilação, com novas condições de
sobrevivência, as capsulas seriam abertas.
I
__Pai, a vida é um sonho?
__Por que você acha isso filho?
__Parece.
Renan desconfiava daquela realidade, como se não fosse real.
Ao mesmo tempo só conseguia liberdade quando sonhava.
As coisas aconteciam de um jeito estranho. Como se seus
pensamentos guiavam a realidade de alguma forma.
Ao mesmo tempo sentia o peso da materialidade das coisas,
como a gravidade, o mundo através dos sentidos.
Mas queria acordar. Acordar daquilo tudo. Como se o mundo
fosse mais do que aquilo. Então desenhava, para fugir pra um mundo próprio.
Depois escreveu. Depois fez música. Mas aquele sentimento não passava.
Queria saber se ao menos, existiam outros como ele. Ou se
estava isolado, como na maioria das vezes se sentia.
Uma vez, já com vinte anos, fazendo caricaturas num bairro
boêmio da cidade, encontrou uma garota que lhe disse que já tinha ido e voltado
do inferno. Saíram de lá juntos para os inferninhos próximos do centro. Se
beijaram e se sentiram vivos. Na volta, viram um cometa. Ela o deixou em casa e
partiu.
Pensava nela com constância de água para um corpo sedento.
Ela se afastara. Um dia, já meio deprimido foi levado ao litoral por seu pai e
uma amiga. Lá, longe de casa, a viu com outro.
II
Já na faculdade conheceu outra garota. Cíntia, era seu nome.
Loura, jovem e atraente, muito inteligente, adorava filosofia e xadrez. Ficava
a olhando até um dia ela o levar para seu apartamento, quadras da faculdade.
Ela jogava xadrez muito melhor do que ele, mesmo assim, perdeu de propósito,
ainda que ele percebesse. Se beijaram e transaram no carpete felpudo da sala.
Dormiram e quando ela acordou disse:
___Eu, uma vez, sonhei tudo o que aconteceu durante uma semana comigo.
Na semana seguinte ela mudou drasticamente de aparência, como se algo tivesse acontecido depois de contar aquele segredo, e viraram apenas amigos.
III
Mesmo assim ele seguiu o seu caminho. Namorou outras
mulheres, teve uma filha que deu um novo sentido a sua existência.
A maioria dos seus amigos sofria, como ele, de transtornos
mentais. Estranhamente antes todos saudáveis e depois todos doentes mentais.
Esquizofrênicos, bipolares como ele, depressivos e com transtorno de ansiedade;
dos mais aos menos graves.
Tomava remédios para controlar os distúrbios da realidade. Com
eles conseguia ver um mundo material onde a gravidade e as coisas sentidas
pelos seus sentidos eram as mesmas de sua visão na praia ao lado de seu pai com
cinco anos:
___Pai, a vida é um sonho?
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