Pequenos Bilhetes - Renê Paulauskas
Ultimamente escrevo em pequenos bilhetes os eventos da
cidade com data e horário. No começo era um lembrete para não esquecer. Depois
passou a ser uma alternativa possível para sair. Hoje é mais, uma sinalização
de que existem coisas acontecendo lá fora.
Não saio sozinho há muito tempo. A não ser pra resolver
coisas pelo bairro. Um dia desses fui ver uma contação de histórias na
biblioteca do bairro. Cheguei uns quinze minutos antes, quando ainda preparavam
o palco. Sentei no fundo, até ser percebido pela atriz principal, que me chamou
pra chegar mais perto. Numa das histórias, um pai de família em estado de
miséria troca sua alma por alimento e moradia pra sua família sobrando apenas
mais um desejo. Nesse momento a contadora se dirige a mim e pergunta pra mim o
que eu pediria. Surpreso falo: pra mim? Pra mim mesmo, acho que nada. O fim da
fome no planeta talvez seja um bom pedido.
Saio da biblioteca contente com minha resposta e me dirijo
ao posto de saúde do bairro para pegar meus remédios. No caminho uma linda
mulher passa com seu micro vestido vermelho. Fico hipnotizado. Reparo nela mais
próximo e vejo que é uma trans. Ela entra no posto antes de mim e eu em
seguida. Nos encontramos na farmácia pegando remédios. Ela tem um rosto juvenil
e delicado apesar do tamanho grande de seus ombros fortes. Dou lugar a ela na
fila, ela recusa com um jeito tímido. Nos encontramos ainda no andar superior
onde me surpreendo a vendo novamente e dou uma breve risada pela surpresa.
Volto pra casa contente, sentindo que valeu o passeio. E
desde então começo a anotar os eventos, data e hora, que vão se acumulando na
mesa do computador cada vez mais distantes. Como se soubesse que a maioria das
coisas da cidade não tem a beleza frugal do dia a dia, como passear em seu
bairro.
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