Sonho - Renê Paulauskas
Desde criança eu duvido da realidade. Antes achava que era
como um sonho acordado. Transito nesse sonho que às vezes mais parece pesadelo.
Os próprios sonhos, antes cheios de inquietação e significado, hoje passam em
branco, esquecidos, ignorados.
A questão é que quero acordar. Mas não consigo, talvez só
quando não estiver mais nesse corpo. Até lá, tento me bastar das coisas desse
lugar. Comer, dormir, acordar. Família, amigos, um lar. Coisas que façam
sentido nesse habitat.
Não é que eu não sinta amor. Que não me afete com as
pessoas, ou outros animais, é como uma intuição, de que aqui não é o meu lugar.
Então habito como um alienígena tentando descobrir coisas tão óbvias, que nem
pensaram o porquê.
Minha mãe e um amigo me chamaram de filósofo por pensar
nessas coisas. Não acho que seja o caso. Mesmo os filósofos tem um lugar. Sinto
que o meu é um não lugar.
Quando jovem fui marginal. Não por falta de oportunidade.
Mas por não diferenciar o bem visto do mal visto. No final é tudo igual.
Tirando o preconceito. E ele existe, em todas as pessoas. Se vê com os olhos do
corpo, não com a mente aberta.
Fazia caricaturas das pessoas nas ruas. Adivinhava suas almas de cara e fazia rirem de si mesmas. Não como algo inusitado, mas como um passa tempo agradável que as fizessem se sentir melhor. Na maioria das vezes me agradeciam e pagavam o valor de uma cerveja como a que lá bebiam. E assim passava de bar em bar, dando um alívio a tanta gente que bebe pra esquecer.
Tento mudar a realidade todos os dias, já que pra mim, ela
não existe. E acredito mais nisso do que na sua matéria. E hoje percebo que
nunca vou me adaptar. Mas as coisas ao meu redor começam a se encaixar. E
sinto, ainda tenho muito o que viver.
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