Sensações (crônica) - Renê Paulauskas

Ele não tinha ainda dissecado o texto, lera uma vez e bastou, ficou suspenso num turbilhão lembrando de coisas da própria vida. De ter visto o espírito de seu pai ao chegar no hospital para se despedir. Do amigo falecido depois de tentar morar sozinho. Da amiga doente, já com Alzheimer, aos cinquenta anos.

Acreditava que sua vida estava no fim, podendo reencontrar seus camaradas em breve. Mesmo assim tocava a vida com seus parentes e amigos vivos sem ideias mórbidas. A arte de viver, era maior que todas as outras juntas. 

Vivia esse limbo entre os vivos e os mortos despertos em sua imaginação. Como se sonhasse acordado ou acordasse num sonho. Não tendo certeza do que de fato era feito este mundo.

Às vezes pensava que tudo não passava de um sonho, tentando acordar. Outras era levado pela vida e tudo valia. Essa vida tinha sensação atrás de sensação, coisas tão diferentes.

Uma hora corria como uma bica de água fresca. Outra, quase empedrava, tamanha sua densidade e caos. Tinha que lidar com os dois terrenos, que eram do mesmo mundo. Os prazeres e os desprazeres.

Não podia simplesmente largar as obrigações e se jogar aos deleites. Era isso a vida. Um complexo caminho onde tudo se encontrava. Desde as coisas mais leves às coisas que te puxavam.

Então seguia aos solavancos como um navio à vela sem saber de onde viriam os ventos, só seguindo à deriva. E quando algo imprevisto, como um furo na embarcação, trabalhava da melhor maneira até tudo voltar a fluir.

Pode parecer o contrário, mas era esse choque de realidade, que lhe dizia que existe uma vida de fato. Esse chão pisado lhe dava ânimo para continuar vivo. Uma segurança de que seria mais que um sonho. 

E não pelo deleite, e sim pela atenção e mobilização frente ao desabar de estruturas, sentia a realidade. Algo extraído de sua química, que adensava o mundo em sua volta.

De resto era aéreo, como uma bruma. Desligado, distraído. Ligado às artes e o pensamento. Nada prático. Do tipo que se deixa levar por um sorriso, uma ideia, uma pessoa. Por isso mesmo, lhe eram tão importantes.


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