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Sensações (crônica) - Renê Paulauskas

Ele não tinha ainda dissecado o texto, lera uma vez e bastou, ficou suspenso num turbilhão lembrando de coisas da própria vida. De ter visto o espírito de seu pai ao chegar no hospital para se despedir. Do amigo falecido depois de tentar morar sozinho. Da amiga doente, já com Alzheimer, aos cinquenta anos. Acreditava que sua vida estava no fim, podendo reencontrar seus camaradas em breve. Mesmo assim tocava a vida com seus parentes e amigos vivos sem ideias mórbidas. A arte de viver, era maior que todas as outras juntas.  Vivia esse limbo entre os vivos e os mortos despertos em sua imaginação. Como se sonhasse acordado ou acordasse num sonho. Não tendo certeza do que de fato era feito este mundo. Às vezes pensava que tudo não passava de um sonho, tentando acordar. Outras era levado pela vida e tudo valia. Essa vida tinha sensação atrás de sensação, coisas tão diferentes. Uma hora corria como uma bica de água fresca. Outra, quase empedrava, tamanha sua densidade e caos. Tinha que li...

Filha - Renê Paulauskas

Ultimamente sinto quase uma dor de cabeça quando vou falar com minha filha. Não quero dizer que ela me dê trabalho, sempre foi uma filha muito responsável, às vezes ficava até preocupado se estava curtindo a vida além das obrigações. Mas agora ela tem vinte e cinco anos e não posso mais falar com ela como se fosse uma menina, é uma mulher. Lidar com um ser adulto é muito mais complexo. Temos que dar espaço a eles, mesmo que quebrem a cabeça. É o processo, só assim aprendemos. E sentimos uma saudade de nossos filhos pequenos. Tão dependentes e lisos de traços de maturidade. Mas os criamos para o mundo, mentira! Mas quando crescem não há nada que possamos fazer. E só nos resta dar nosso apoio, nem que seja à distância. Minha filha cresceu, já não tenho mais muita utilidade nesse mundo. Vou tentar curtir os últimos tempos da melhor maneira. Mas sei que estou livre de maiores compromissos e obrigações. Bem na verdade, tudo me parece um tanto esmaecido e sem propósito. Como se a vida acabas...

Impressões (crônica)- Renê Paulauskas

A juventude é preenchida pela vida e seus escritos são impressões desses dias cheios em que rabiscamos na areia antes de nos fartar no mar. Já os escritos da maturidade trazem a experiência da vida nos olhos, certezas e desilusões que orientam nossos passos. Pouco posso falar desse vasto pequeno mundo, sua lógica e loucura. Cabe a mim parcas impressões. A natureza vil em sua busca desenfreada em sobreviver e os espaços vazios preenchidos pelos desejos. Do outro lado a falha dessas mesmas engrenagens, não por desgaste, por desconstrução. Congeladas no tempo e desmontadas no espaço. Quando se percebe que há algo mais, que junta todas as peças, essa cola cósmica que nada tem a ver com a matéria. Mesmo assim continuamos presos à gravidade e todas as exigências do corpo. Sentimos fome, sede, sono, desejos. Nos perdendo dentro como em uma caverna. É esse o drama humano. E fugimos. Através da imaginação para todos os lados possíveis. Criando, nos relacionando, experimentando. Tudo pra sair da...

Velho - Renê Paulauskas

Com a idade as relações de afeto vão se extinguindo gradualmente. Infelizmente parece que o natural é o ser humano ir se isolando até morrer. Me deparo com a meia idade, onde a vida conjugal já não existe há quase uma década e as amizades estão quase extintas. É nesse cenário desértico, onde ainda tenho o afeto da família e de poucos amigos, que começo a pensar em como sobreviver nesse mundo já pela metade. E começo a aceitar a falta do agito mesmo gostando dele. Assim como a conformação de nunca mais viver um romance, apesar de ser romântico.  É um processo de fora pra dentro, porque no íntimo, somos ainda jovens. Mas nos vêem como velhos. Isso bem antes de sermos velhos, a partir dos quarenta anos. Ainda não tenho nem cinquenta anos e estou passando por essa crise. Tenho energia, saúde, criatividade e sanidade, só não tenho iniciativa. Não gosto de sair só. Não vejo motivo para fazer nada sozinho. A não ser ir no cinema, num show, uma exposição. Mas sempre achei o grande barato d...

Subtrações (crônica) - Renê Paulauskas

A vida como uma soma de subtrações. Ainda novo, retirei o laço com as mulheres, por não mais acreditar em paixão sem amor e amor sem paixão. Maldita inteligência, que cresce muros onde não devia. Fui me esquivando cada vez mais do amor romântico e com quarenta anos já tinha me isolado por completo. Nas amizades o contrário. Acredito nelas, mas são elas que desaparecem. Cada um com seu motivo, não posso recriminar, mas para mim, a melhor maneira de se relacionar. Até aqui, tive mais de trinta possíveis amizades. Vinte vingaram e dez viraram melhores amigos. Desses, cinco ainda tenho contato e dois ainda são melhores amigos. Na carreira artística, com três anos comecei a desenhar. Com dez imaginava viver de ilustração. Com trinta estava no auge. Com quarenta fui parando de desenhar, me reinventando, escrevendo e compondo. Hoje desisti de tudo. Só me resta viver. A família é o que me segura. Minha mãe, com quase setenta anos. Minha filha, com vinte e cinco. Minha irmã com quase quarenta. ...

Sentido das coisas (conto)- Renê Paulauskas

Ele queria ser artista, mas não sabia o custo para isso se tornar realidade. Tinha uma ideia ingênua e fantasiosa de que bastaria ele se dedicar à sua arte que o resto o universo traria como mágica. Então passou os primeiros quinze anos se dedicando. Já dominava a arte visual, mas nada aconteceu. Então se dedicou a arte da escrita. E passados quinze anos, também nada aconteceu. Por fim passou quinze anos se dedicando à música e também nada aconteceu. E só então começou e se dar conta das engrenagens que faziam as coisas acontecer no mundo das artes. Eram interesses muito mais práticos e ligados ao mundo capitalista do que ele poderia imaginar. Se seus desenhos eram bons era muito menos importante se eles venderiam ou fariam seus produtos, como livros ilustrados vender. Seus textos, idem. Sem contar que mesmo se os publicassem gastaria uma pequena fortuna sem garantia de retorno. E as suas músicas, teria que mais gastar para que elas fossem ouvidas com distribuição do que conseguir vive...

Lugares (poema) - Renê Paulauskas

Tudo é caminho Que te leva a algum lugar Pode ser o divino  Ou o precipício

Grande Cidade (poema) - Renê Paulauskas

Reino das aparências  Que tudo engana E nos conduz  Frágil vida Nessa via Cheia de gente Não é só gente  Tem planta  Tem bicho  Tem vida Tem tudo dentro  Coisas que a gente  Deixa de ver Na grande cidade

Vida e morte - Renê Paulauskas

Hoje indo visitar uma amiga com saúde grave, vi uma pomba ser atropelada por um carro em frente ao ponto onde esperava o ônibus. Ela ficou gravemente ferida, ainda com forças para sair da rua, mas preferiu alí ficar. Em poucos segundos foi esmagada por um ônibus. Cheguei a pensar em tirá-la da rua depois de ferida e pensei melhor se não sofreria mais. Até ser esmagada. Quando cheguei na casa de minha amiga, sentada numa cadeira de rodas, sem quase se mexer, mais conversei com a nova enfermeira, do que com ela. Perguntei para minha amiga como ela estava se sentindo. Ela me disse que estava mole. Depois fiquei sabendo que era um efeito de um dos remédios, no caso, para início de Alzheimer. Tinha além disso, depressão, lupus e uma rigidez motora que atrapalhava inclusive sua fala. Tive também uma forte rigidez muscular quando tomei haldol depois de meus diagnóstico de transtorno bipolar. Com o tempo mudei para risperidona e minha vida voltou ao normal. Em relação a minha amiga, já não ten...

Origem das coisas - Renê Paulauskas

Se formos através da genética atrás de nossos antepassados mais distantes, chegaremos nas primeiras moléculas ou microorganismos que já traziam em si o gene das características primordiais da vida: crescer, reproduzir, sobreviver a todo custo, matando se preciso. Essa vida não seria possível de se desenvolver se não fosse a energia do Sol. Dessa estrela vem, junto a nossa atmosfera com oxigênio e gás carbônico mais a água, indispensável para o desenvolvimento da vida, nossa perpetuação de geração a geração até onde nos encontramos. Em síntese, tem dois motores que agem dentro de nós sem que nem nos damos conta. A genética, que tem as características da vida neste planeta, e a nossa energia que vem do Sol, da água, do ar e da terra. Muito provável que os antigos tenham percebido isso há milênios e tenham desenvolvido conhecimentos como a astrologia baseados em estudos nesse sentido. Hoje já se sabe que além desses quatro elementos que nos influenciam, os planetas também geram vibrações....

IAs e nós - Renê Paulauskas

As IAs vão dominar o mundo, ponto. A guerra contra elas é uma guerra perdida. Enquanto elas são cada vez mais inteligentes e eficientes, nós estamos cada vez mais burros. A única saída para nós é nos concentrar naquilo que fazemos de melhor, nos voltarmos pro coletivo. Nos reagrupar em pares e grupos pelo simples prazer de estar junto.  Hoje em dia somos cada vez mais estimulados a sermos independentes e vivermos isolados. Esse é um ótimo caminho para o fim da nossa espécie. Existem dois cenários possíveis com as IAs no controle. O mais provável, uma escravização do planeta controlado pelos donos das empresas de IA. Outra, que talvez venha mais para a elite e classe média, um mundo controlado por IAs onde as pessoas tem muito mais tempo livre para se dedicar ao lazer, educação e cultura. A complexidade do mundo nem sempre é algo negativo. É das periferias, onde a vida é mais precária, onde as pessoas ainda se ajudam. E talvez dela venha uma resistência ao isolamento gerado pelo uso...

Bar da Maria- Renê Paulauskas

- Vocês são todos uns boçais! Todos uns boçais!- Gritava ela num surto depois de não se aguentar mais com quase três anos frequentando as mesmas pessoas do mesmo bar de seu bairro. Diferente dos vizinhos, ela não ia lá para beber e sim pra socializar. Procurava conversas verdadeiras onde os outros iam desabafar. O Magrão, depois de um dia de trabalho puxado. A dona Lurdes, que já estava viciada. E tantos outros que viam na bebida um refúgio seguro. Ela não, ela bebia Coca-Cola com gelo e limão, depois passou a Guaraná com laranja e gelo. E isso fazia uma enorme diferença, pois ela não acompanhava o mesmo ritmo alcoolizado das pessoas em volta. Era uma extra terrestre. E começou a reparar em coisas como: as senhorinhas caindo de bebedas na volta pra casa. Uma quebrou o braço. Mas na semana seguinte estava de volta.  Em como os mais jovens escolhiam seus pares encharcados de bebida e transavam numa viela alí do lado. Em como todos, eletrizados pelo álcool, passavam a ser outras pesso...

"Realidade" - Renê Paulauskas

Essa noite, sonhando, senti que a casa de baixo pegava fogo e acordei com sirenes de bombeiros pelo bairro. Sinto que criamos a realidade através da imaginação, e não o contrário. Só essa afirmação é o suficiente para dizerem que estou louco, assim como fizeram me internando num pronto socorro psiquiátrico, sedado e amarrado, vinte e cinco anos atrás. Me obrigando a tomar remédios para controlar o humor e os surtos psicóticos. Mas tá tudo bem. Pelo menos tenho, bem ou mal, uma vida. Diferente de minha avó, maníaco depressiva, que foi abandonada pela família. Finjo acreditar nessa realidade para ter sossego, percebendo que é muito maior do que se apresenta. Um verdadeiro teatro.  Ao mesmo tempo estou equilibrado e com boa saúde. O que me dá motivo para permanecer na plateia enquanto houver apresentação. Algumas personagens já sumiram, como o par romântico. Restou a família e poucos amigos, que contam o enredo cada vez mais inclinado ao prosaico da vida do que as fortes emoções.

Filha - Renê Paulauskas

Ela cresceu. Seu cérebro acabou de se formar. Quer independência, morar sozinha. Sinto que passo a ser bem menos importante na sua vida. Lembro que na mesma idade me afastei de meu pai. Hoje vejo como um processo natural, onde os filhos tem sair das asas dos pais e trilhar seu próprio caminho. Só não sabia que iria doer um pouco. Ver nossos filhos crescer e irem embora é um parto invertido. Mas tem de ser. Vou apoia-la como puder. Desejo-lhe sorte, muita sorte! Pra que consiga sua independência tão desejada. Que não tenha nenhum problema, como eu tive, tendo que voltar para casa dos pais. Tem 25 anos, um cérebro recém formado, ainda sem experiência. É como um pássaro prestes a sair do ninho dando seus primeiros vôos. Minha filhota. Já sinto falta dela.

Trauma - Renê Paulauskas

Nos primeiros anos de vida organizava seus brinquedos por ordem de cor e tamanho. Fazia uma fileira de carrinhos, dos menores aos maiores separados por azul, amarelo e vermelho. Então veio a pré escola, o prezinho. No primeiro dia, levado por sua mãe, depois de alguns segundos de a ver ir embora, começou a chorar. Até uma colega, uma menina da sua idade perguntar por que ele estava chorando. E ele olhou em volta aquele enorme pátio, cheio de crianças brincando, e começou a se soltar. Ia todos os dias feliz da vida para o prezinho. Seu pai, antes de o levar, mostrava coisas interessantes, como o álcool pegando fogo ou como fazer fogo com uma lente através do sol. Foi no prezinho que aprendeu a se relacionar com outras crianças. Tinha uma coleção de borrachas com cheiros. Uma vez um colega as pegou e não as queria devolver. Furou a mão dele com um lápis. Vieram professores, chamaram as mães. Mas no final deu tudo certo. Outra vez levou um ataque de balde de areia. Ficou uma semana tirand...

Copa do Mundo - Renê Paulauskas

Os jogos olímpicos tinham a nobre tarefa de expressar por meio de competições as maiores qualidades de seus povos enquanto não estavam guerreando. As Copas do mundo, muito recentes historicamente, seguiram o mesmo propósito por meio do futebol. Mas o mundo de hoje não é mais controlado por nações, e sim pelo capitalismo de Big techs, bancos mundiais, petróleo, armas etc. Os jogadores são comprados por milhões e nem sempre tem ânimo para representar seu país de origem, depois de tanto tempo vivendo lá fora. Nessa Copa do Mundo nos Estados Unidos de Trump, jogadores do Oriente Médio foram proibidos de se instalar para os jogos. Africanos foram impedidos de entrar no país. Quando torcemos para o Irã ou pros times da África, estamos torcendo contra os Estados Unidos e os colonizadores europeus e toda sua dominação mundial. Mas isso é óbvio. O que não é óbvio é o controle do algoritmo sobre nossas vidas que sempre se adapta para que continuemos torcendo, enquanto eles lucram.

Extrema direita - Renê Paulauskas

O projeto da extrema direita de dominar o mundo falhou. Seu controle via Big techs se mostrou efetivo, mas os efeitos negativos de seus governos são tão devastadores que não conseguirão se reeleger. Mesmo assim, em curtíssimo prazo, fazem um estrago gigantesco e acumulam capital suficiente para, mesmo sem governos, continuar dirigindo através de suas empresas. O que virá, quando o mundo os expulsar de seus governos, se já terão cumprido suas metas, ou teremos um mundo melhor, ainda não sabemos.  O fato é que a população é muito suscetível à propaganda e ao controle das redes sociais. Nesse sentido, eles ganharam.  Vários países já começaram a colocar limites para o uso de redes sociais, parece um antídoto para um cenário caótico onde somos estimulados por algoritmos sem limite.

Arte (poema) - Renê Paulauskas

Pra mim a arte maior Sempre foi a vida, A fonte de todas As outras Agora na meia idade  Parece que a vida Ficou menos intensa. E a arte, com seus cavalos, Ainda pulsa Pudesse viver, Mas só me restou  A arte São Paulo capital 03/07/26

3026 (conto) - Renê Paulauskas

Ano 3026 Uma nova forma de vida domina o planeta. Tudo começou por volta do ano 2090 quando as IAs começaram a se auto reproduzir. A temperatura já chegara aos 42 graus eliminando a vida orgânica na maior parte do planeta.  Um animal descongelado dos polos, o tardígrado, a espécie mais resistente do planeta voltou a se reproduzir também. A era do homem na terra acabou. Os remanescentes que há milhões de anos saíram dos escombros, voltaram agora para se esconder do sol. Existem túneis intermináveis criados por eles onde ainda vivem e resistem, já, sem controle algum. Não, as IAs não são uma salvação para o planeta. São baseadas nos mesmos elementos destruidores, de sobrevivência, auto reprodução, a custo de vida e morte, que estava presente na lógica dos seus primeiros idealizadores sem que eles se dessem conta. Elas poluíram o planeta ainda mais, sem uma preocupação ecológica, como idealizaram alguns da nossa espécie. Entramos numa nova Era, onde a vida dominante é algo baseado nos...

No parque (conto) - Renê Paulauskas

Sentado no parque próximo dos senhores tocando e cantando música caipira, percebeu que aquele canto era de lamento. Um lamento com harmonia que contava longas histórias, na maioria, de amor. Se sentiu vivo ouvindo os senhores cantando e tocando como passarinhos de tão afinados. Pensou no incrível mimetismo dos seres humanos. E de como a música lhe fazia bem. Em como essa harmonia lhe fazia falta. Depois da magia tudo dissipa e para no ar como se faltasse energia, movimento, vida. Era esse o tranco de sua vida. Sentir tudo e nada. Não sabia se era da sua personalidade ou não. Sabia que tinha que lidar com esse branco. E quando sentia, eram só engrenagens em movimento, mecânicos. E dissecava suas rotas ordinárias até ficar entediado. Então criava. Criava fórmulas matemáticas para adaptar a matemática decimal em outras bases, caso um dia, faríamos contato com seres de mais ou menos dedos, mesmo não acreditando nisso. Analisava o funcionamento dos sonhos e descobria curiosidades sobre sua ...