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celular novo- Renê Paulauskas

Minha mãe comprou pra mim um celular novo, o velho não funcionava mais. Ele é tão pequeno que é impossível escrever nele, por isso hoje, escrevo aqui no computador. Acho que vai ser bom começar a escrever aqui, mais profissional. E o celular, esquenta e descarrega em poucos minutos de uso, só vou usar em extrema necessidade.  

Homo Óculos - Renê Paulauskas

Nossa espécie, depois do advento do smartphone, deveria passar de homosapiens sapiens para homo óculos, do tanto tempo que passamos vendo coisas no celular. Distrações, coisas inúteis, e todo um mercado estratégico para essa demanda.

Desgovernado- Renê Paulauskas

Os mesmos trilhos, a mesma estrutura, trem desgovernado. Corpos sãos, mente não. Se exprime a visão realidade. Anjos, Deuses, coabitam a materialidade da carne. Tem que fingir que só vê o chão.

capitalista- Renê Paulauskas

Para ser um capitalista comece não dividindo o que é seu com ninguém. Segundo, transforme tudo a sua volta em dinheiro. Terceiro, gasta o mínimo e acumule o máximo. Certamente terá uma vida infeliz. Talvez no último suspiro pense em fazer tudo diferente. Mas será o que essa burrice te levou.

Portas- Renê Paulauskas

Só fecho portas quando não há mais o que se fazer. Quando cortaram o diálogo, quando, em outras palavras, já fecharam a porta. Então fico sozinho, lambendo minhas feridas, até sair de novo. O mundo é essa constante renovação. Dolorosa, mas essencial.

Pessoa errada- Renê Paulauskas

Era a pessoa, a pessoa errada. Cobria um vazio no aspecto social, mas era torta, desprezível, não condizia com seu lugar do lado dos outros. Não tinha empatia, era incapaz de reconhecer seus erros, mais ainda de pedir desculpas. Era um erro. Melhor um espaço vazio que algo que a gente se arrependa.

Compulsão - Renê Paulauskas

Fico aqui escrevendo há dez anos só nesse blogue, esperando que a arte se concretize, que tenha um sentido. Mas me deparo com o risco de ter tudo apagado ou nem ser lido. Como uma compulsão que morre com seu doente. É preciso correr atrás, é preciso mais.

Tempo livre- Renê Paulauskas

O que fazer com o tempo livre, é fácil quando se está bem acompanhado, seja um amigo ou uma paquera, mas o que fazer quando se está sozinho. Vejo muita TV, como, caminho, às vezes leio, escrevo e até faço umas musiquinhas... Ainda assim sobra tempo livre. Acho que eu estou precisando trabalhar.

Família - Renê Paulauskas

Matei meu pai, fui morar com a minha mãe, virei mãe da minha filha e amigo da minha irmã.

Ratoeira- Renê Paulauskas

 Ratoeira, modo horrível de matar um ser vivo. O induzindo pela fome a pegar um pedado de queijo é pego e esmagado sem dó. Gatos são mais eficientes, também levados pela fome, matam dentro de sua cadeia alimentar, não como nós, que matamos tudo a volta só para nos sentirmos limpos.

Riso- Renê Paulauskas

 A flor do seu abraço. Ar fresco. Distração, tempo voa. Frutas, novidade. Riso, coração. Renovado.

Ventilador - Renê Paulauskas

 Um ventilador, o tempo Uma formiga atravessa A lua cheia, preguiça  O rio negro desaparece

Churrascaria-Renê Paulauskas

 Depois de estar há quase dez anos trabalhando como caricaturista fui contratado por uma empresa de telefonia para fazer eventos em congressos e hotéis por quase todo o país por seis meses. Estava eu com vinte e nove anos. Ficava nos melhores hotéis, comia a comida mais cara, cheguei a ficar até com problemas dentais de tanto frequentar as churrascarias de cada cidade onde ficava hospedado.  Quando terminou o trabalho quis levar minha família também numa churrascaria. Pegamos o carro, minha mãe, minha avó, minha irmã e eu e começamos a rodar pelos arredores aqui da Lapa em São Paulo. Entramos em uma, sentamos. Mas fiquei meio descontente por não ser uma churrascaria do padrão das que havia comido Brasil a fora. Foi então que minha avó olhou pra mim e disse: ''O Renê tem uma cara de pobre''. E todos rimos, não só da pérola dita por minha vó, como da situação. 

Paredes descascadas- Renê Paulauskas

 Canos de vassoura, baldes velhos com coisas pra jogar fora, rachaduras no chão. Essas coisas acho que aparecem na maioria das casas pobres, sempre que as encontro percebo que estou numa. Nós pobres não perdemos tempo olhando essas coisas. Tem coisas que até arrumamos, como jogar o balde de coisas velhas no lixo ou até comprar vassouras novas, mas algo como a rachadura do chão é mais difícil de tapar.  A primeira vez que tentei impedir alguém de ver a situação da minha casa, era criança. O chão da cozinha estava caindo, as paredes criavam desenhos através de várias camadas de tinta descascadas.  A segunda foi com uma colega de faculdade, que depois de muito insistir, ao ver a goteira interminável da varanda como infiltração, não quis entrar. Depois reformamos, ficando apenas uma terna rachadura no piso da cozinha, para nunca esquecermos quem somos e nos diferenciar de todos aqueles que não queiram se misturar com pessoas como nós, que vêem imagens de coisas, como seres e ...

Vozes- Renê Paulauskas

 Uma voz sem voz, uma voz marginal. Como a dos negros, dos pobres, dos doentes mentais. Que dizem coisas, dores, que ninguém quer ouvir. Que os brancos, bem nascidos, racionais não querem escutar. Esses mesmos que são racistas, exploradores e normais. Desumanos e imorais.

Fama - Renê Paulauskas

 Moscas. Devem ser moscas o que aparece depois de se fazer sucesso, milhões delas. São olhares fixos, espantados e pessoas prontas para arrancar pedaços.

Pastel- Renê Paulauskas

 Algo acontece quando se vai  chegando numa certa idade. As roupas são cada vez mais discretas, como se fossem perdendo a cor e sua voz antiga, a da juventude. Dão lugar a um pastel pálido e sem vida. Mas o pior não é a roupa, é a falta de vida que vestimos como se fosse natural. Com o tempo a perda da juventude, da beleza se juntam a uma vida apagada e sem graça.

Refúgio - Renê Paulauskas

 Era muito quieto, muito calado. Andava olhando pro chão. Até que floresceu violento, rindo, falador. Mais forte, confiante, vivo! E assim namorou mulheres, viajou sua terra, fez amigos. Agora, vinte anos depois, estava só. Já não tinha a mesma força nem autoconfiança. Queria um refúgio tranquilo, sem precisar brigar. 

Fugiu- Renê Paulauskas

 A poesia fugiu Calou as bocas das pessoas  Mal o sol nascia já era noite A lua subia já era dia Algo nascia e morria Velho se era desde novo Novo também mesmo velho  Mas sem memória  Assim nem velho nem novo Tudo se era sem nada ser A flor abria e já fechava A lua nova, a lua velha Nada se escrevia Pois nada importava Nem rimava  O rio tudo levava O vento que dispersava O nada tudo esbarrava  E nesse silêncio  Morri a vida.

Pombas! - Renê Paulauskas

 Cansado de jogar no lixo tantos corpos de pombas mortas pelo gato do vizinho. Maldito gato! E deixa sempre nos mesmos lugares, já acostumado a matá-las na minha casa.

Então - Renê Paulauskas

 Eu só queria sair um pouco, mas a chuva não deixou. Pensei, não sou feito de açúcar, posso ficar num lugar fechado, ver um pouco de gente, mas a pandemia não deixou. Então fico só em casa, que pelo menos chova, então! 

Mergulho- Renê Paulauskas

 Mergulhai na onda do desatino, verás como é profundo. Driblai a loucura maligna, essa que te acorrenta. Sede são sempre, mas não nega o tesouro que encontrou.

Sofá- Renê Paulauskas

 Domingo, desaguo no sofá junto a chuva lá de fora. Não, amanhã não vou trabalhar. Quando trabalhava era feliz. Primeiro como assistente, depois desenhando tantas caras diferentes. Era a vida. E sobrou isso. O velho sofá.

Trauma- Renê Paulauskas

 O trauma, a ferida encoberta, repousa na tarde de verão. Lusco fusco relaxa meus ombros. Tudo há de passar. E somente a tarde e suas luzes hão de ficar.

Conflito - Renê Paulauskas

 Conflitos, que nos tiram a vóz, quando não nos fazem gritar. Decai o mundo nas nossas costas, traídos e incompreendidos. Aflição na pele que paralisa. Rompimento de acordo por um decreto. Fagulha de desespero engolido. Conflito, algo não resolvido, as vezes nem relatado. Aflito, sumo no mundo, meu mundo escondido.

Sidarta- Renê Paulauskas

 Sidarta, filho do rei, fugiu de seu palácio. Do lado de fora encontrou a fome, a miséria, a dor, física e espiritual. Achou ele na prática da meditação e do desapego o caminho do meio. ''Sidarta, não é possível meditar com fome. Não é possível praticar o desapego quando se falta o básico. Não é possível o equilíbrio quando se está sofrendo de dor.'' Portanto só se consegue o equilíbrio combatendo a fome, a miséria, e as dores físicas e espirituais pra depois, se quiser, meditar. 

Esse cara-Renê Paulauskas

 Da euforia se fez a calmaria. Da violência se fez o repouso. E agora ele era só, pois não haviam mães que se ocupavam dele, já tão crescido, tão cuidado. Ele já não uivava pra lua, ficava dentro de casa. Mas gostava do inusitado, de passear com os amigos, de viver. Mas a ansiedade estava menor. Então compunha menos, escrevia menos, não desenhava mais de um ano. Tudo porque não se angustiava tanto com o não fazer nada. Quase meditava. Ficava calado, pensando pouco, se acalmando já tando calmo. Foi me tragando, mas sempre que podia eu fugia. Pois desconheço esse aí, nem sei do que é capaz!

Olhos do lado de fora- Renê Paulauskas

 Meus olhos estão do lado de fora. A confusão se desfez dentro de mim. Minha aventura agora terá de ser outra. Calmo, atento, agora volto a ser do mundo. Mundo esse que tempos atrás me devorou. 

43- Renê Paulauskas

 43, amanhã às sete da manhã faço 43 anos. Como disse um amigo outro dia, estou muito bem. Melhor que muitos anos que não estava mal, mas a elocubração da minha cabeça não me deixava enxergar. Me sinto jovem, disposto, pronto pra começar a vida. A mesma que brota um novo fruto quando a casca envelheceu.

Cindido- Renê Paulauskas

 Cindido! Quebrado, machucado, rompido. Cindido mais uma vez! Transformado, renascido, restaurado, revivido. E agora ando sem bengalas, mas ainda com dor nas costas, porque nada é esquecido.

Mágica- Renê Paulauskas

 Quando nós conseguimos ver as coisas de cima? Nunca! Somos produtos do meio, afundados em questões, conflitos, emoções e prazer desse mesmo meio. Fadados à superfície enquanto engrenagem da qual os artistas tiram sua mágica. 

Vitrine- Renê Paulauskas

 Vitrine de humanidades: para ser feliz basta estar vivo, para sofrer também. Não há critérios para viver, viva! Mas não se acostume com tudo, ache seu lugar. E um estranho há de vê-lo em seu habitat, dirá: Vitrine de humanos: a felicidade é um privilégio de poucos.

Morder- Renê Paulauskas

 Quero morder, mas quando mordo sangra. Gosto intragável dentro da garganta. Cicatrizes, dores de dentro e de fora. Inevitável força de fraqueza!

Cair da ficha- Renê Paulauskas

 Só agora caiu a ficha: ''Tô sozinho no mundo''. E por mais que isso tenha um peso, me alivia de não precisar estar com quem eu não gosto. Posso ser eu mesmo o tempo todo. E nada me impede de me relacionar com quem eu gosto. E de ficar de olhos abertos, que nem sempre as pessoas são aquilo que parecem. E confiar no destino, que sem isso nada vale.

Crônica 1-Renê Paulauskas

 Acabei de compor uma música no chuveiro, mas quando gravei e ouvi a gravação me assustei com minha voz. Definitivamente não sou cantor. Na TV ligada estava o João Bosco contando como conheceu Gilberto Gil na casa do Vinicius de Morais, desliguei. A nata, sempre ela em todos os lugares! Quase liguei o computador para ver um filme pornô, mas seria vazio demais. Então me refugiei nesse blogue abandonado.

Novo- Renê Paulauskas

 Do fim do casamento nasceu meu gênio estourado. Do temperamento normal passei à tolerância zero. Hoje me equilibro graças a remédios fortíssimos. Mas voltei a ter uma vida. Volto a pensar no futuro. A escolher meu presente. Tudo está errado mas tudo tem conserto. Não o casamento, nem os amigos errados. As novas escolhas.

Jaula- Renê Paulauskas

 E prometeram ao primata: ''Você ficará protegido dos seus predadores. Terá comida e bebida sempre à disposição. Não precisará mais caçar ou coletar como seus ancestrais. Terá tempo livre para fazer o que quiser a hora que quiser. Caso queira o ócio, ninguém o obrigará do contrário''. E foi assim que o macaco aceitou sua jaula.

Minha queda- Renê Paulauskas

 Minha queda foi depois de tentar evitar todas aquelas pessoas, por seus defeitos, foi perceber que todas eram humanas. Foi conversar com uma mulher acompanhada sem perder o encanto apesar da companhia de seu namorado. Foi ouvir, mais sentir do que dizer. Assim eu fui me acomodando também naquela forma humana. Minhas asas foram se desfazendo. Era eu imperfeito e com saúde. Quando voltei pra casa, depois de dormir algumas horas, uma tremenda ressaca. Mas ainda me sentia ligado àquelas pessoas.

Brasis- Renê Paulauskas

 Tem dois Brasis no Brasil. Um que entrou na universidade Federal, que estudou nos melhores colégios, conseguiu trabalho na sua área e antes de entrar pode sonhar. O outro está fora dos interesses dos governos, passa fome. Está longe dos projetos das cidades. Tem problema de habitação, saúde, educação, transporte, trabalho. É o Brasil esquecido. Que foi obrigado a continuar trabalhando na pandemia. Que pega o ônibus lotado quase todos os dias. E quando vai se divertir não tem mais medo de não usar máscara. Que mais morre nas estatísticas. Que ouve um pagode alto. Que dança, bebe e estravaza. Que sonha um mundo melhor dentro dessa bolha. Bolha sufocada pelos grandes centros onde estudantes repetem que aquele barulho distante é reflexo da indústria cultural de massa. 

Reflexos pandemicos-Renê Paulauskas

 Vejo amigos que depois do vírus se acostumaram a não sair mais de casa para ver mais ninguém. Pessoas que tinham vida social agora morrem de medo de sair de casa, mesmo com a situação mais controlada. Uma amiga outro disse ter se acostumado a ficar sozinha em casa. Nada contra curtir a casa sozinho, mas se é por medo de sair de casa, isso é um problema. E digo mais, um problema de saúde pública. Milhares de pessoas estão nessa situação. Que trabalho fazer para ajudá-las para voltarem ao normal é algo que precisa ser pensado. Essa pandemia foi um trauma pra muita gente. Vi um filme espanhol que um homem passou anos escondido em um buraco durante a guerra. Quando acabou a guerra ele não sentia mais segurança para sair do buraco. Foram anos até que sentisse coragem para pisar na rua novamente. O que está acontecendo com a pandemia é muito sério. Acredito que mesmo com a situação totalmente estável terão milhares de pessoas "acostumadas" a não mais sair.

O delírio - Renê Paulauskas

 O delírio, visto como processo de desencadeamento de sons, imagens ou sentimentos, pode ser entendido como uma inteligência. Não no sentido mais fraco, de resolução de problemas, mas como inter relação de conteúdos gerando uma cadeia de sentidos que é o próprio delírio. Esse processo se dá de modo inconsciente, não sendo de fácil acesso seus motivos. A substância dopamina, responsável pelo prazer entre outras coisas, se produzida em excesso pode gerar esse tipo de delírio conhecido como surto psicótico. Esquizofrênicos e certos tipos de bipolares produsem dopamina em demasia. Mas ainda há muito o que descobrir sobre os processos do delírio. Deixar de estigmarizalo como loucura já seria um bom começo. 

Queima- Renê Paulauskas

 Queimei, queimei as cartas que me prendiam à ela. Foi queima tardia depois de dezoito anos separados. Queimei agora, pra voltar a viver, agora com quarenta e pouco. Mas mesmo assim me deixou mole, cansado, desanimado. Tanto tempo perdido. Agora enfim me desliguei. E na queima, voltou alguma coisa. Uma fagulha de cinza que entrou no meu peito. Agora é esperar. Decompor. Aí sim, quem sabe, estarei outro.

Arte digital- Renê Paulauskas

 Os NFTs atualizaram a arte. Como produção, registro e comercialização da arte digital. Enfim a materialidade do objeto se perdeu. Até o comércio desse modo de arte é feito em moedas digitais. Para registrar uma imagem ou vídeo precisa ter dinheiro, mas é muito mais democrático do que ter que passar por um aval de uma galeria. Tudo o que fora descartável por ser criado através  do computador agora passa a ser super valorizado como arte. Expressão do nosso tempo. Agora podemos dizer que em matéria de arte entramos no século XXI. 

Celular- Renê Paulauskas

 O vício do celular confunde minha vida com o aparelho. A ansiedade faz eu dar voltas e voltas pela casa. Como se tivesse preso num looping à espera de mensagens que apitam de tempo em tempo. Não é vida, é a vida em função do aparelho. Nele abasteço redes como whats app, Facebook e Instagram. Escrevo neste blogue, gravo músicas e as adiciono no soundcloud. É uma vida toda voltada para esta máquina. Tento me desplugar mas não consigo, medo de me tornar uma ilha. Então olho o celular. A pandemia acirrou ainda mais essa dependência. Isolado em casa o aparelho me reporta o mundo. Um mundo de pessoas plugadas como eu. Com possibilidades de vida perdidas em algarismos. As redes nos consomem e nem nos damos conta.  É um caminho sem volta. Até a preocupação em não viciar já está inclusa nas novas plataformas. Mas a possibilidade de viver sem um aparelho é cada vez mais remota.  É uma troca do empírico pelo virtual. Como se quase não tivesse diferença. É dessa forma que somos domi...

Bolsonaros- Renê Paulauskas

 Vejo o Bolsonaro nas ruas, bebendo sem máscara. Nas casas, espancando suas mulheres. Nos quartéis, abusando do poder. Na mediocridade humana. Na vil e torpe descrença no futuro. No erro banal. Vejo ele em tudo. Ele é a regra não a excessão. 

Língua - Renê Paulauskas

 A dica que eu dou pra quem tá começando a vida agora é: Enfie a língua toda. Enfie a língua toda em outras línguas, outras bocas, outros corpos. Que essa língua tem o poder de guardar texturas, gostos, sentimentos. Aproveita enquanto ela é maior do que sua cabeça. Pois quinze anos depois já começa a envelhecer. Sente a vida sem preconceitos. Depois terá uma razão que não te abandona. Olhos que pouco enxergam, pois não verá o mundo com sua língua. Meta a língua toda!

Revolta- Renê Paulauskas

 A revolta vem da alma. Cansada, esgotada, acha força não se sabe da onde, mas revitaliza eufórica, mais viva do que nunca antes para travar sua guerra. É um surto, algo que não se controla, que vem de anos, décadas reprimido, pedindo fôlego, pedindo ar. Quando vem não mais vai embora, se âncora, faz seu porto. Passa uma década, quase passam duas. A alma se refaz aos poucos, mais frágil, menos eufórica, mais humana. Agradeço a essa força que tive, sem ela nunca teria como voltar a ser somente eu.

Sonho- Renê Paulauskas

 O sonho me assustava e acordava no meio da noite. Era um aluno dentro da classe. De repente tudo começou a levitar, as carteiras, os alunos, e bati uma foto. No segundo depois entreguei a prova pro professor com aquela foto. Saímos no intervalo, fomos à praia, mas não podia entrar no mar, estava de cueca. Quando voltamos o professor me cumprimentou dizendo que tirei dez. Fiquei apavorado e de longe disse que tinha tirado zero.  Acordei assustado. Com a sensação ainda muito real do sonho. O medo do desatino. Voltar a surtar. A sensação de as coisas aconteciam por minha vontade, ou da minha cabeça. Mas depois voltou tudo ao normal. Sonhos são assim mesmo. 

Bolor- Renê Paulauskas

 Bolor, esse fruto deveria ter sido mordido vinte anos atrás. A moral sufoca a vida, essa não perdoa. Ou não, não teria sido mais que a beleza da fruta por si mesma. E a separar das outras, simples escolha. A fome faz lembrar daquilo que rejeitamos. E agora já é um fruto velho. Que desperdício.

Buraco negro- Renê Paulauskas

 Existe um buraco negro dentro de mim. Por isso componho, escrevo, desenho e às vezes até faço humor. Quando digo buraco negro, não confundir com depressão, é mais uma bomba atômica, ou todas juntas aniquilando essa coisa que se chama vida. Por isso tenho outro lado. O que não mata o inseto, que reza, que sonha. Que acredita num mundo mais justo, menos desigual. Que ama os amigos, a família, os iguais. Que acredita no amor. Para que eu não me torne nesse buraco negro, que quer tudo engolir.

À grande deusa - Renê Paulauskas

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Do alto- Renê Paulauskas

 O burguês joga pedras do alto de seu prédio no telhado da casa pobre do seu vizinho sem se preocupar com nada. O rico tudo tem, direitos, polícia, liberdade. O pobre nada tem, a não ser a fé. Se segura nessa corda bamba com rezas, pedidos, prometendo graças, confiante da vida, sorrindo pra ela. Até que um tiro certeiro te atravessa. E toda molhada no chão desfalece. O tiro certeiro do guarda. Tão certeiro como o lixo do burguês jogado de sua janela. Morre seco, sem direitos, sem liberdade. Vive o porco burguês de sua janela. Removem o corpo, está tudo limpo mais uma vez. Joga o lixo mais uma vez.

Ciência - Renê Paulauskas

 

Falta de ar- Renê Paulauskas

 Nessa pandemia, a falta da rotina da vida de antes, o confinamento e estreitamento social, acirra os surtos e delírios como um desvio de percurso procurando ar. A ansiedade aumenta, as possibilidades de extravasar diminuem. Surtos, depressão, delírio, Ansiedade. Tudo num caldo de mundo apocalíptico, quase sem brechas pra respirar. A catarse se faz no exagero, no descontrole, na imaginação. Ou morre na falta de ânimo, perspectiva. O novo normal é ser esse monstro. Esse ser adoentado com sequelas desse tempo louco em que nos encontramos. 

Galã- Renê Paulauskas

 

Surto psicótico - Renê Paulauskas

 

Despedida- Renê Paulauskas

 Me despedi da minha mãe e fui dormir no quarto que era do meu avô. Acordei no meio da noite com um som de um cachorro gemendo. Sabia que não podia ser um bicho de carne e osso, parecia mais um espírito, e tentei voltar a dormir um pouco assustado. Pouco depois senti como uma lambida gelada nos dedos do meu pé esquerdo, que coçam sem parar, desde aquele dia em que terminei com Astrid depois de perceber que eu era seu amante e há ter chutado e quebrado o dedo indicador do meu pé. A lambida fria parecia do meu antigo cachorro Tony, mas quando senti na virilha, lembrei da Astrid. Pensei que depois de todos esses anos, com coceira e sem mulher ela estaria lambendo minhas feridas para eu recomeçar. Realmente, depois dela, nunca mais tive relacionamento com ninguém, isto é, ninguém que fosse casada ou comprometida. No final ouvi ela dizendo alto com a voz da minha mãe: ''Engraçado, Paulo!''

Terra infectada (micro-conto) - Renê Paulauskas

 A Terra foi infectada há milhões de anos por uma coisa chamada vida. Essa coisa tem por finalidade a sobrevivência e reprodução de sua própria espécie. Passando metade de seu tempo gasto com a sobrevivência e outra metade descansando e procurando se multiplicar. A última ramificação de sua forma é a vida humana. Que conseguiu meios de prolongar o tempo de vida de sua unidade sem diminunir sua reprodução superpovoando o planeta. Essa forma de vida mais recente chamada humana gasta parte de seu tempo mais recente procurando vida em outros planetas sem se dar conta que a própria vida é uma infecção. 

Quando um acaso vira sincronicidade- Renê Paulauskas

 Foi na copa de 2002, final nos últimos minutos, quando eu acelerado, chamando a atenção do meu pai que não tirava a atenção do jogo na televisão da sala, falei: ''Não vai me escutar, então vou acabar com esse jogo'' E passei o dedo na tela direcionando a bola do jogo ao vivo até o gol, no mesmo instante que foi gol do Brasil, encerrando como campeão mundial da copa naquele ano? Voltei para meu pai e disse: ''Agora podemos  conversar?'' Meu pai ficou assustado. Sua namorada tentou o tranquilizar dizendo: ''É gravação''. E meu pai: ''Não é gravação, é ao vivo!'' Ela ficou ainda mais assustada. Pouco depois ouvi uma voz dizendo na minha cabeça: ''Tem um novo jogador aqui. Seu nome é Renê Paulauskas da Rocha''. Se não fosse aquela voz, acredito que tudo teria sido diferente. Eu não acreditaria ter feito o gol da copa daquele ano. Tudo teria sido apenas uma grande coincidência. Demoraram quase vinte anos, toman...

Lispector - Renê Paulauskas

Hoje estava inspirado para ler. Sim, existe inspiração para se ler, como tudo. Lí algumas crônicas de Clarice, da época que escrevia em casa para o jornal. Ela descreve tão bem coisas que já vivi. Como gosto dessa mulher. Que faz eu me conhecer em suas palavras desde minha adolescência. O livro era pra minha filha. Natural querermos que os filhos leiam o que nos inspirou. Talvez ela não goste como eu. Ser pai é aceitar as escolhas da filha. Talvez ela goste. Antes, vou terminar de ler.

Fracasso- Renê Paulauskas

O fracasso me alcançou. Entrou como um grude na sola do sapato. Foi difícil de perceber no início. Era uma coisa aqui, outra ali, mas nada me abatia por esse lado. Fui andando pleno, confiante. Até sentir o grude prendendo meu passo. Continuei, mancando, mas ativo. Até começar a sentir o cansaço. Os caminhos iam se fechando, as ruas se estreitando. Os corredores derrepente se viam vazios. Com o tempo fui ficando sem ar. Meu otimismo, quase imbatível, deu lugar ao deus dará. Toda força que parecia inata deu lugar a um ser que mal consegue caminhar. Estou cansado. Cansado de lutar. Quero descansar num canto. Estou cansado de tanta coisa. O escuro me acalma. Talvez precisasse desse dia. Desse morrer. Sentir esse dia como um um pouco morrer, mas ainda estar vivo. Ainda respirar. Mesmo que em silêncio. Ouvindo as gotas da pia. Que a vida não depende de mim. Que posso fracassar. Que o mundo não é perfeito. Que as pessoas morrem. Que existe fome no planeta. Que utopias são sempre utópicas. Qu...

Silêncio - Renê Paulauskas

 O peso das horas me prende no chão. Subsolo de imagens e recordações. Respiro, tão bom não pensar. Olho, me vejo. Tão bom calar. Desejo, penso. Volto a me angustiar. Queria ela, um vinho, uma trançada de pernas e o silêncio.

O mau acadêmico -Renê Paulauskas

 Uma dica que eu dou pra quem está entrando na faculdade agora. Questione seus professores com argumentos além da instituição. Expresse suas idéias em sala de aula e em provas. Estude além do pedido o que lhe interessa. Aprenda mais com a vida do que com os professores. Ou copie e cole tudo que seu professor mandar SIC a SIC e se torne um ótimo acadêmico burro.

, (mini-conto) - Renê Paulauskas

 A vírgula estava me matando aos poucos. No começo achei que era somente uma pausa entre uma coisa e outra, quando vi estava mudando o sentido de tudo. Começou como uma tosse e foi virando tuberculose. Com o tempo já não era eu que falava, ela dizia por mim. Ainda estou meio viciado nela, mas digo, estou tentando mudar. Aos bons amigos peço se por descuido meu, a ignore quando for demasiadamente. Agradeço a todos a compreensão. Espero voltar dessa mais forte e sábio.

Amor- Renê Paulauskas

 Queria de novo encontrar o amor. Numa esquina, como uma borboleta branca, pequena, divertida. Pensando bem o encontro sempre, só não o prendo mais. 

A hora da colheita - Renê Paulauskas

 Sinto que agora, depois de ter passado maus bocados, é hora de me vingar. Não fazendo o mal, ou dando o troco, simplesmente me separando definitivamente dessas pessoas. Me diferenciando delas, suas maldades, suas escolhas. Sendo eu, diferente delas, alguém que não quer fazer mal.

Enterro das horas- Renê Paulauskas

 Amanheço ansioso para o dia começar, mas ele não vem. Vou me enterrando aos poucos conforme o passar das horas. A tarde chega sem respostas para já tanta inquietação. Desmarco meu compromisso ainda no início da tarde, antecipando um possível não. Mas olho, minuto a minuto, esperando ainda uma surpresa. Fim da tarde, escrevo esse desabafo enterrando o dia que não veio.

À minha vó- Renê Paulauskas

 Vó, há pouco tempo não tínhamos saída, éramos trancados longe da família, maltratados com eletrochoques. Éramos banidos, ignorados, invisibilizados. Hoje ainda temos uma estrada a percorrer, de luta de direitos. Mas hoje estamos mais fortes, mais conscientes, mais assistidos. Não posso dizer qual o caminho, se devemos buscar a razão ou defender a loucura. Acredito que cada qual deve achar a sua voz. Mas, vó, hoje já não nos calam! Tem muito preconceito  ainda por aí. Mas cada vez mais é normal ter algum transtorno ou doença mental. Depressão, Transtorno Bipolar, Ansiedade, TOC... A lista é longa. E todas as pessoas com essas e outras doenças tem uma vida normal. A luta antimanicomial, iniciada na Itália nos anos 70, ganhou o mundo! Aqui hoje as pessoas são tratadas em CAPS, voltando para casa todos os dias. Em casos menos graves a pessoa faz tratamento em postos e UBS com atendimento psiquiátrico e remédios. Minha vó, gostaria que soubesse o quanto avançamos. Queria mais, que...

Sonhos- Renê Paulauskas

 Quem dera os sonhos se materializassem, sem dúvidas ou imperfeições. Só os sentidos plasmado-se no todo, engrenagem divina de um mundo etéreo. Mas acordo e caio no asfalto áspero, desilusão. Mundo cão! Cheio de falsas ilusões! 

Afazeres- Renê Paulauskas

 Não quero meu ego inflado, quero alcançar as pessoas que ecoam em minha cabeça. Não quero fama, quero servir como auxílio. E que amanhã é um outro dia, que eu tenha outros afazeres. 

Sair sem avisar - Renê Paulauskas

 Ontem saí sem avisar. De cara um homem invocou comigo exigindo que eu pedisse licença para andar no ônibus lotado. Estava correndo para pegar carona com uma amiga saindo do trabalho, mas quando chego lá ela me diz que a kombi não pode dar carona, que eu teria que ir de ônibus. Entro no ônibus, nem cobrador nem motorista conheciam onde teria que descer. Uma moça com o namorado ao lado diz que também desceria lá. Agradeço e sento no banco ao lado do casal. Começo a ficar cismado com o cara. Presto atenção à conversa. Amigos que estão presos. O cara diz referir usar um tresoitão. Dispara meu alarme interno. Discretamente me levanto e passo a catraca. O olhar da moça me procura. Desço do ônibus. No extremo sul da capital peço um taxi, que é recusado dezenas de vezes por ali ser uma zona de risco de assalto. Quase meia hora depois uma motorista aceita meu pedido e em minutos chego à casa da minha amiga.

Aniversários

 Aniversários são datas que nos lembram duas coisas: que estamos vivos e mais velhos, portanto, mais pertos da morte. Pelo menos é o que sinto hoje, fazendo quarenta e dois anos, ainda me sentindo um tanto jovem. Quando fiz trinta anos comemorei com mais de trinta amigos. Hoje, medito sozinho um pouco ansioso. De certa forma tem uma pressão em fazer aniversário, que não se sabe exatamente da onde vem. 

Eterno- Renê Paulauskas

 Dias eternos nesta sala. Não há porão, não há sótão, tudo terrivelmente achatado pela visão dos móveis, quadros e paredes. Tudo é sereno, o silêncio, o vento nas folhas do lado de fora. Não quero visitas, só a calmaria me basta. O brotar do respirar é algo que preenche. 

Memória- Renê Paulauskas

 A memória prega peças. É falha, distorcida, não é segura. Porém, nossa única fonte de veracidade. Memórias, interpretações da realidade recheadas de emoções de um espírito parcial da realidade.

O fazer- Renê Paulauskas

 O fazer, desde com vontade, nos torna livres. Seja uma receita, uma arte, ou resolver algo. O cérebro humano agradece. Após o feito se sente um prazer específico em ter acabado a atividade com sucesso. Resignificando a si a partir dos afazeres. Agora, fazer o que não se gosta, é uma grande escravidão.  O tédio se aproxima mais a um não fazer. E ao mesmo tempo um não viver. Isso não significa que não se possa viver sem o fazer. O fazer descrito acima se resume a atividades com começo, meio e fim num período curto. Viver é algo mais complexo. Menos prático, mais intuitivo e inconsciente. Mais ligado ao improviso, ao acaso, o inesperado. Portanto mais interessante ainda do que ''o fazer''. Mas esse viver descrito por último se limita a uma sensação superior, a de se sentir vivo. Viver engloba todos os períodos da vida, assim como o tédio, os afazeres obrigatórios, nem sempre prazerosos, etc.

Fantasma- Renê Paulauskas

 Às vezes vejo fantasmas. Fantasmas vivos que já não existem mais. E os cumprimento como de carne e osso. Os dou de comer, de beber, os deixo corados. Daí quando saio, esqueço deles como se nunca tivessem existido. Sou tão morto como eles. Somos todos iguais.

Acordando- Renê Paulauskas

 Ele se alimenta na sombra desenhando luzes. Diz que renasceu várias vezes do passado. Caminha sobre as folhas secas com o vento desalinhado seus cabelos. Está vivo, mas toda noite morre alguns segundos. Gole seco de água na madrugada. Preso entre a noite e a manhã. Descortina de olhos cansados. E repete, é uma história de amor, é uma história de amor. 

Transtorno Bipolar - Renê Paulauskas

 Hoje, dezoito anos depois daquele dia da nossa separação, começo a entender melhor o que aconteceu.  Depois de uma história de muitas descobertas com criatividade e tesão, nosso sexo já não era mais o mesmo entrando no nosso quarto ano de relacionamento. Foi então que ela disse uma vez não se importar em não gozar. Percebia que se aproximava do trompetista da banda. Eu cuidava da nossa filha, com um ano na época. Pagava sua escola, a levava cedo, buscava, dava banho, comida, botava pra dormir, éramos muito próximos. A mãe chegava do trabalho depois que já estávamos dormindo.  Um dia não aguentei mais e pedi a ela que me contasse se tinha acontecido alguma coisa entre ela e o trompetista. Ela disse que eles se beijaram. Conversamos rapidamente com calma dizendo que o mais importante era ficarmos juntos, como se nada tivesse acontecido. Fomos deitar e aconteceu. Acordei em surto de agressividade a colocando pra fora de casa. Surtos como esse seriam normais dali pra frente ...

Ensolarado- Renê Paulauskas

 Mais um dia me escondo. Atrás de uma janela, com braços e pernas pra fora. Dias passam rápidos e iguais. Uma curiosidade me mata: O dia lá fora. Procuro companhia entre meus pares. Desocupados interessados no dia como eu. Uns mais outros menos, mas hoje, ninguém tão desocupado como eu. Exceto a Riso, que tem tomado sol.  Com gente de fora é mais difícil marcar alguma coisa. Pelo menos agora na pandemia. A lista do whatsapp diminuiu. Deixei somente amigos e família. Tentei refazer contatos. Não foi possível, o mundo encolheu. Agora fechou o tempo. Talvez chova. Já me sinto melhor. Sem tanto desejo castigando a vontade de um dia de sol.

Desaguar - Renê Paulauskas

 A vida carcomida pelas arestas precisa de descanso. Desaguar pra continuar. 

Morto- Renê Paulauskas

 Peso morto. Tábua esquecida no chão. Difícil levantar, difícil levitar. Lataria velha, descarte. 

Ressaca- Renê Paulauskas

 Derrepente da imagem se fez relevo, assim começam todas as fantasias. Da vizinha se fez amante, da amante, mãe dos filhos. Quando acordou estava só. Só cartas não enviadas, sem selos, sem remetente. Vivera como um fantasma. Ressaca de sonhos e ilusões. 

Escondido - Renê Paulauskas

 Me diz agora pra onde irei caminhar. Nessa ilha minúscula. Antes meus pés caminhavam livres, tinham a dimensão do mundo. Agora quase não saio de casa. Pudesse ver o mundo mais uma vez com outros pés. Pudesse eu ir até a esquina e voltar. Longe do mundo me escondo. Me encontro em análises do eu como esta. 

Acorda!- Renê Paulauskas

Esfria a cabeça. O mundo não acabou. Acabou apenas a fantasia. Essa que te tira do trilho. Que se alonga a quase uma década comodamente. Ficção com o desejo do sonho. Mas, acorda! Vive a vida. Sei que é difícil. Mas, acorda.

Filha - Renê Paulauskas

Foi de apertar o peito aquela sensação. Ver a menina crescida prestes a se mudar. Falava sempre pelo telefone com ela. Laço que se alongava à anos, junto aos passeios raros. Agora, já tinha dezenove anos. Iria se mudar pra outra casa, outro telefone. O medo que desce algo errado. Não de achar outra casa, mas de ficar sem contato. Era um medo irreal. Mesmo assim um medo.

Amor- Renê Paulauskas

Na verdade não fui feliz no primeiro amor. Na segunda chance que tive, fui. Namorei, tive uma filha, moramos os três juntos, por um tempo. Até que de novo veio o fim. A diferença é que dessa vez surtei. Quando dei por mim já era outro. E tive que carregar a desilusão do amor como uma ferida que não fecha. Mesmo assim ainda guardo numa caixa de madeira aquela carta primeira daquela que dizia ser uma admiradora com seu desenho de um calango boiando num tronco rio adentro numa noite de luar. Sua carta faz parte da minha essência, assim como parte do processo de cura. Mas ela, a mãe da minha filha, não mais. Assim guardo na caixa o recorte de nossa juventude, para ver se renasço mais uma vez, dessa vez em outro lugar.

Envelhecer- Renê Paulauskas

Meus amores envelheceram como eu. Nada mais é eterno. Fui deletado dez vezes por não suprir as expectativas.  Um velho andarilho, sem fadas para o curar.

Praia- Renê Paulauskas

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Celular- Renê Paulauskas

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Leveza- Renê Paulauskas

Aos poucos o rolê marginal foi sendo substituído por companhias mais leves. Assim, muitos amigos foram desaparecendo. Os que ficaram passaram dos portões pra cá com direito a um descanso com chá, mel e algumas bolachas. Os outros se perderam no caminho, arodeados de confusões. Desse lado do portão não são aceitos classistas, raciscas ou qualquer um que se ache melhor do que o resto. Sim, contra eles temos preconceito, mas é por um bom motivo.

Renê Paulauskas

Coletivo Calangos- Renê Paulauskas

Toda vez que vejo cenas do filme do Wim Wenders ''Hotel de um milhão de dólares'' me emociono. Como são lindos os marginais, tão autênticos, por isso mesmo, fora do sistema. Vejo como o Vinil (Vinícius Tetti Silla) e eu demos uma parcela, pequena, mas importante criando esse blog como uma oficina experimental de trabalharmos nossas loucuras como arte. Escrevemos, tocamos, saímos do óbvio. O projeto inicial, junto ao Cris (Cristiano Mancuso) e meu pai (Faifi) que era de conseguir projeção e trabalho foi substituído aos poucos por uma vontade louca de fazer coisas novas que sentíamos na hora. Por isso o desenho, que já estava treinado há anos, foi sendo trocado por textos improvisados ou músicas. Mas isso talvez fosse muito pouco se eu e Vinil não tocassemos no que mais nos enquietava, a loucura. E desse modo demos nossa contribuição mais verdadeira, falando sobre nossas experiências com a dita cuja. O Vinil faleceu e eu continuei escrevendo depois de uma pausa. Enfim, no...

Covid 19- Renê Paulauskas

Um amigo testou positivo para Covid 19. Está internado, vi ele numa maca sorrindo pra foto. Fóda! Quando a doença chega a adoecer um amigo é muito diferente de ver estatísticas ou jornais. A situação se torna real. Luz, cor, calor. Densidade, angústia, lembranças. Esse vírus mata, nem todos, mas uma porcentagem que mesmo não sendo tão alta, assusta. Hoje, fui contaminado pela terrível realidade do coronavírus: o medo de perder alguém próximo para essa pandemia. Há poucos anos perdi meu melhor amigo para H1N1, que também ataca o sistema respiratório, mas com uma letalidade muito menor. Esse amigo fumava cinco maços de cigarros por dia, o que foi decisivo para sua morte junto a Sars daquele ano. Hoje tenho medo por todos com deficiência respiratória, pessoas de idade, ou qualquer um que tenha o quadro agravado se testar positivo para o novo coronavírus. Essa guerra hoje molhou meus pés, abalou o sistema nervoso, mas ainda tenho muito ar para respirar. Estou sem palavras.

Peça- Renê Paulauskas

Peça ''Um breve passeio pelo bosque da loucura'' de Renê Paulauskas. http://bosquedaloucura.blogspot.com

Sol- Renê Paulauskas

Hoje eu acordei de um mal que foi embora. Como nos contos de fada, o surto que tirara meu humor deu lugar a um dia de sol. Mais leve tomei meu café da manhã e respondi algumas mensagens no celular. Que bom.

Mental- Renê Paulauskas

Mania de perseguição, idéias de conspiração, egocentrismo exagerado, são sintomas dessa minha doença. Que sem remédio, é como viver num filme sombrio de ficção. Quase sempre mais atrativo que a banal e insignificante vida real.

6mg - Renê Paulauskas

Ontem, depois de anos estável, dei uma pequena surtada. Tenso, nervoso, à noite não conseguia dormir. Tomei 2mg de risperidona a mais e consegui relaxar e dormir. Parece que nunca vou conseguir me livrar desses remédios.

Bike - Renê Paulauskas

Há alguns anos gastei o final do dinheiro que tinha guardado na compra de uma bicicleta. A idéia era voltar a andar como fazia vinte anos atrás, mas na verdade andei até hoje menos que dez vezes. Vendo ela parada, pensei em vendê-lá. Pra minha surpresa, valia menos que um quarto do valor que tinha comprado quatro anos antes. Até que um amigo pediu emprestado para trabalhar como entregador. E esse foi o fim da minha fantasia de voltar a ser ciclista.

Movimento - Renê Paulauskas

Todos erros e acertos fazem parte. De uma roda que respira, se fecha e se abre. Movimento da vida, pulsação de vida e morte.

Celular - Renê Paulauskas

Essa caixa da onde saem as palavras dos meus amigos e parentes mais próximos. Donde quardo sons e textos pra depois espalhar aos ventos. Que tira dúvidas sobre tudo o que penso. Que me dá o mundo, mesmo que limitado.

Ficar em casa - Renê Paulauskas

Sempre acreditei que o movimento está na rua, lá as coisas acontecem. Porém, com o passar dos anos, essa natureza foi sendo substituída por um acúmulo de solidão. Sair às ruas simplesmente, não significa nada. Encontrar pessoas interessantes, sim. Só o encontro nos dá a liberdade de nos conhecer, e a outras coisas, com curiosidade.

Apocalipse - Renê Paulauskas

Nessa pandemia, quando a produção de alimentos parar por falta de funcionários, nunca será tão necessária sua robotização e uma renda para as pessoas consumirem seus produtos. Esse vírus só antecipou o futuro umas décadas, nada será mais como antes. As máquinas trabalharão a serviço da humanidade. O Estado será obrigado a garantir renda, educação e saúde para seus cidadãos. O velho mundo pós moderno está se desfazendo como um castelo de cartas. Esse período de isolamento que estamos vivendo funcionará para acelerar essas mudanças. Uma renovação do mundo está acontecendo, e para melhor.

Eterno- Renê Paulauskas

Sonhei. Um sonho onde fazia de tudo pra encontrá-lá. Que quando enfim ela chegava, estava em outro lugar. Era a outra a quem corria, mas antes mesmo do contato, acordei. Que sonho romântico, pensei. Onde a busca do encontro é eterna e nunca se dá.

Cupim- Renê Paulauskas

Tem várias maneiras de se perder alguma coisa. A melhor, sem dúvida, é a entregando pra vida. A pior, é pegando cupim.

Tão- Renê Paulauskas

Hoje tive um sonho tão bom, que não queria sair da cama. Um sonho tão bom, que não queria mais acordar. Tão bom, que fiquei pensando se era pra mim mesmo e não pra uma pessoa mais necessitada. Tão, que quase me senti culpado.

Depois do fim- Renê Paulauskas

A luz ainda não foi apagada. Não há trevas. O sistema, sim, entrou em colapso. Mas não é o fim, e sim um recomeço.

Vírus- Renê Paulauskas

O vírus acabou com a autoestima da pós modernidade, onde velhos se achavam jovens e doentes se achavam saudáveis. Pois um limite ultrapassado, um retrocesso. Um doloroso horror. O bom é que vai passar. Quem sabe aprendamos algo com essa dor.

Espelho- Renê Paulauskas

Minha vida ensinou ''olhe menos no espelho'', o mundo verdadeiro se encontra na vida. Risos, jeito espontâneo, surpresa. Tudo do lado de cá, sem imagem refletida.

Frasco- Renê Paulauskas

Impulsos elétricos que não escolhi. Para uma falsa ilusão de realidade que também não escolhi. Cérebro-computador tátil. E meu coração em frascos.

Vício- Renê Paulauskas

O que dizer do prazer, como nos vicia. Libera dopamina querendo sempre mais. Nos escraviza antes de percebermos. Fazendo de tudo só pra sentir mais uma dose. Horrível prisão invisível. Que nos torna reféns de algo tão natural como o prazer.

Viver- Renê Paulauskas

Comecei a desfazer a rotina, fazer o que dá vontade. Lavar a louça, para me diferenciar dos machistas. E com o tempo, vivendo.

Tanques- Renê Paulauskas

Começava a esquecer as coisas. Se tinha ou não tomado seus remédios. Sonhos só lembrava às vezes. Enfim estava sendo tão normal como os demais. Perto, chegavam caminhões cheios de soldados. Tanques. Tropas. Era o fim. '''Rene, que má hora para ter uma vida normal''.

Pêlos- Renê Paulauskas

Faço a barba por cima da cicatriz suicida pedindo um pouco paz. Não tão cortada pela rigidez dos hábitos militarizados da saúde pública, mas pelo simples incômodo dos pêlos grossos crescidos em meu rosto. Foram só quinze anos para deixar que crescessem soltos para depois cortar naturalmente.

Music- Renê Paulauskas

In saturday I walking in the street and look the bird sing in the way. In my house I think in my life. I belive the goes with the faith. I belive the walk with step by step.

Espera- Renê Paulauskas

Tiraram a cortina multicolor. A morte aparece. Também a vida. É preciso se agarrar as coisas como quem está com fome. Porém, em volta, sempre mais podridão do que beleza. Se guiando pela certeza que vale a pena esperar.

Flor- Renê Paulauskas

Plantei flor e não vingou. Venho plantando flor desde o fim de um outro amor. Mato cresce, se espalha, mas a flor nunca brota. Vou rezar dessa vez pra ver se vem alguém. Um broto novo neném. Pra meu coração voltar a bater. Pra eu também não perecer.

Meninas sinceras- Renê Paulauskas

Ah, sapatas! Como são lindas. Não todas, mas as bonitas. Diretas, francas, ousadas. Com suas peles delicadas de pequenas amazonas seguindo viagem. Sem medo fazendo amizade. Fico encantado com tanta beleza, sapatas sinceras.

Simples peido- Renê Paulauskas

Um simples peido é antes um intestino com gazes, por mais que não associemos na hora. Cada coisa traz em si um desenrolar. Até nos sonhos é assim. Só não percebemos por acúmulo de tarefas ou ações. Assim as coisas funcionam.

Caminhando- Renê Paulauskas

Tudo que eu penso vem do mundo, mas não é o mundo. A chuva que cai esbarra em mim, mas cai com uma densidade muito mais forte sobre o chão. Ainda não sou tão insignificante como um em bilhões, mas me moldo, pouco a pouco, a ser um indivíduo cosciente. Como todo ser, cheio de potencialidades.

Ônibus- Renê Paulauskas

Ontem de madrugada, esperando o ônibus pra casa, apareceu na estação uma menina de verde que me chamou a atenção. Sentou do meu lado e começamos a conversar. Falei do meu amigo que depois que fica bêbado não quer mais voltar pra casa. Ela disse que tinha tomado uma baita de uma chuva no carnaval. Esperávamos o mesmo ônibus, em trajetos opostos. Depois de partir pensei como seria legal reencontrá-la. Mas na hora nínguém tinha ou pensou em pegar no celular. Deu um sentido aquele pequeno trocar de ideias. Como se estivéssemos certos e o mundo tivésse errado.

Ocioso- Renê Paulauskas

Para quem tem excesso de tempo livre, não mais estuda, nem trabalha, administrar o tempo pode ser uma tarefa árdua. Muito mais fácil seria se deixar explorar por subempregos numa era de fim dos direitos trabalhistas. Mais fácil, não melhor. Estudar já pode ser uma saída, já que não se pode viver só de lazer. Mas depois de formado, muito melhor a liberdade de ser autodidata. O problema é que continua faltando o caráter de socialização, que mais faz falta para quem não se encontra num trabalho ou numa escola. Quando era mais novo estudei numa escola de desenho que foi fundamental para minha formação, muito mais do que a escola de primeiro e segundo graus. Estava envolvido com o tema do desenho de modo apaixonado. Consequentemente conheci outros com o mesmo propósito. Quando fiz teatro na adolescencia senti o mesmo. Fui acolhido pelo grupo que me identifiquei ficando quatro anos com eles. Depois voltei para a escola de desenho, virei assistente do cartunista que era fã e comecei a trabalh...

Canto dos pássaros- Renê Paulauskas

Acabo de ouvir daqui de casa dois pássaros diferentes cantando juntos. Enquanto um fazia uma voz, o outro, entrava em seguida com o segundo canto. A prova de que realmente estávam cantando juntos, e não somente ao mesmo tempo, foi quando pararam o canto juntos em perfeita harmonia.

Necessidade/Desejo- Renê Paulauskas

Me sinto isolado, abatido, quase morto, preso. Preciso sair, encontrar pessoas, me encontrar. Preciso de conexões. Incendiar. Só depois descansar.

Branco- Renê Paulauskas

Nem a chuva se decidiu, se cai ou não. Página em branco no meu caderninho. Queria que toda loucura estivesse em debates pela cidade. Queria participar. Mas esse mundo, tão chato, não me acompanha. E eu aqui sentado, esperando o que não vem. Se pudesse reinventar o mundo, não sei mais se posso. Até sonhar é difícil. Relampágos no ar, e a chuva que não vem.

Hippie- Renê Paulauskas

Todo lugar é fechado. Aberto, quando sim, pra visitas, pro consumo e evento, mas sempre fechado em sua cúpula de organizadores. Não importa se é anarquista, socialista ou de contra-cultura, é assim que se organizam os centros, coletivos, grupos, sempre fechados. Uma prática de poder às vezes inconsciente, outras não. Acho que os únicos que se abriram pra mim, fora a família e alguns amigos, foram os hippies, mesmo assim alguns, não todos.

Trabalho- Renê Paulauskas

Trabalhar ocupa a mente e preenche o tempo. Trabalhar fazendo o que se gosta é isso sem perceber o tempo passar. Trabalhei minha vida toda como desenhista, fosse ilustrando livros ou fazendo caricaturas. Sinto falta de trabalho já há alguns anos. Nesse período praticamente fiquei sem desenhar. Ocupo meu tempo escrevendo e compondo, mas é diferente, é mais um hobby. Não estar trabalhando com desenho me faz muito mal.
Música projeto sociopolítica

Sonho- Renê Paulauskas

Sonhei, e no meio do sonho percebi que era todas as personagens, percebi também que era o narrador. Tudo isso automático, só pra mim. Que bom seria fazer um livro com toda essa facilidade.

Eternos- Renê Paulauskas

São eternos o amor, a arte, as amizades. É temporal o homem, o mundo, sua miséria. O animal humano pensa a eternidade, sonha, cria, se realiza. Este, que só pode imaginar deuses e imortais, logo perece. Tão caricata sua vida, ele ao menos sonha, já não mais sonham nossos mortais.

Mundo- Renê Paulauskas

Mundo contemporâneo, onde estão teus filhos, que a sociologia, a psicanálise já te desmascarou? Que podem eles, se não, gritar, gemer num mundo de fim de mundo sem ter pra onde correr? Mundo velho, tuas máscaras cairam, teu projeto rachou! O novo virá, resignificando o mundo, o broto. Estarei velho, mas mais vivo do que nunca!

Consumismo- Renê Paulauskas

O consumismo confunde a necessidade com o desejo. Cria ''necessidades'' ilusórias num mundo onde as verdadeiras necessidades, sejam elas, materiais, biológicas, psicológicas ou culturais estão escondidas atrás de outdoors, comerciais e marketing querendo vender sempre mais. O ser humano perdido no meio dessas engrenagens do capitalismo moderno, muitas vezes, não tem a quem recorrer, se não, ao consumismo desenfreado. Prova disso é a doença moderna de acumulares, onde a pessoa compra e guarda coisas totalmente desnecessárias sem conseguir se desprender delas. Não é a toa que o país onde há maior número desses disturbios é nos Estados Unidos, onde está instalado o mercado mais capitalista do mundo.

Portais- Renê Paulauskas

Muito já se falou da psicose como desrazão de uma maneira negativa, eu, depois de vário surtos psicóticos, posso falar da mesma como experiência prática de abrir portais. Através das sinapses aceleradas é possível se alcançar outras frequências de realidade, que mudam conforme o pensamento. Similar aos efeitos alucinógenos, o surto abre caminho para uma realidade interior tão forte como o exterior que marca sua história de vida de um jeito perturbador. Sendo o maior conflito, muitas vezes, poder conviver harmonicamente com o mundo real e seu mundo interno. Remédios podem ajudar a desacelerar a mente e voltar a viver mais normalmente. Mas aprender e entender os conteúdos acessados através de surtos psicóticos, é materia pra uma vida inteira.

Robôs-Renê Paulauskas

A segunda metade do século XXI vai ser, entre outras coisas, de implementação da robótica e crescente substituição da mão de obra por essas tecnologias. Diminuindo o número de profições e vagas de emprego, as sociedades que implementarem essas inovações, terão que pensar como ocupar e sustentar um enorme número de desempregados. Sendo necessário um fundo criado a partir dos lucros das empresas robotizadas para esses desempregados terem, inclusive, como consumir seus produtos. Esse processo deve ser de muita luta e pressão social, pois os capitalistas nada fazem de graça, mas se vitoriosa iniciará uma nova era em que o homem será sustentado pelas máquinas. Parece ficção mas está logo alí.

Felicidade- Renê Paulauskas

Sonhei que vagava entre colegas da minha escola de desenho, mulheres, boêmios. Mas só quando cheguei em casa, comendo um bife do lado da minha esposa, é que encontrei a verdadeira felicidade.

Controle- Renê Paulauskas

Existe um leão dentro de mim. É preciso domá-lo. Caso tenha que pagar por seus estragos. Sua sede, quase insaciável, pode por tudo a perder. Todo controle conquistado depois de anos de remédios fortíssimos. Agora sou eu, eu que tenho que controlar o leão. Deixá-lo manso, como um gato qualquer.

Anônimo- Renê Paulauskas

Ontem, antes de dormir, pensei ser minha sina ser um cara anônimo. Um cara anônimo controlando o Universo. E no Multiverso, vários como eu. Será?

Vida nua- Renê Paulauskas

A vida nua é assustada. Anda olhando pro chão, procurando algo quando ergue a cabeça. Mas esquecida, é quase um trapo. Pobre vida. Mas se cultivada, desabrocha. Fica forte, confiante, bonita. Difícil é só deixar de ser tão desconfiada.

Noite fresca- Renê Paulauskas

Tão bom estar sereno, sentado na poltrona sem camisa nessa noite de verão. A sala silenciosa depois da visita da minha irmã, que gosto, mas como fala... Comi um brownie fora de hora, tenho refluxo, hoje durmo no sofá. Por isso mesmo minha despreocupação com as horas. Uma paz. Minha mãe já está dormindo, silêncio. Não precisamos de muito pra viver bem, pena que às vezes nem isso temos.

Meu olhar- Renê Paulauskas

Tudo é e tudo não é. O mesmo fato pode ser entendido como coincidência por um cético, ou como cincrônicidade por um místico. Tudo depende do ponto de vista. Cada olhar carrega suas virtudes e fracassos em si mesmos. Bom é ser coerente consigo mesmo, mesmo sabendo que às vezes estamos equivocados.

Muito mais- Renê Paulauskas

Cada passo rumo a uma vida normal, percebo como a loucura me salvou. Desse olhar vazio, desse mundo crú. Cheio de inspiração sobrevivi até aqui. Hoje mais sereno, mais pé no chão, sei que o mundo é muito mais do que uma ilusão, uma casca sem vida. A vida é muito mais que a razão.

Monstros- Renê Paulauskas

No corredor do banheiro, com as luzes já apagadas e minha mãe dormindo, apareceu um estranho ser em meio as sombras. Parecia uma pequena cobra de menos de dez centímetros. Estava com uma ponta volumosa. Tive que acender a luz do banheiro. Toquei no bicho com a ponta do chinelo, se contorceu em gestos rápidos contraindo o corpo elástico. Ainda não dava pra ver, pois a luz do banheiro não iluminava aquela parte do corredor. Acendi a luz de fora para iluminar um pouco a sala e por consequência aquela parte do corredor. Ainda pouco iluminado o jeito foi ir empurrando o ser esquisito até a luz do banheiro. Lá estava ela, uma mihoca cheia de poeira e fios de cabelo. Levei-a até o canteiro e fui dormir.

Che Guevara- Renê Paulauskas

Ainda no ginásio, na escola em que odiava estudar, lembro de uma garota passear no intervalo com uma boina a lá Che Guevara. Me aproximei e ela desatou a falar sobre política, coisa que nada entendia naquela idade. Procurei ela em outros intervalos mas nunca mais a ví. Desapareceu da escola. Acho que seus pais a transferiram para uma escola melhor.

Amigos- Renê Paulauskas

Sou um pouco de cada. Bom como o Tiago. Marginal como o Anderson. Audaz como o Caio. Louco como o Vinil. Chato como o Cristiano. Calado como o Renato. Todos melhores amigos.

Sabiá- Renê Paulauskas

Dizia a placa ''Praça das ilusões''. Tudo era vazio e passageiro. E eu ali parado, no banco da praça, esperando. E mesmo se corresse, me empenhasse, seria como segurar o ar. Dei por mim que nada alcançaria naquele lugar. E um Sabiá começou a assobiar.

Fragmentado- Renê Paulauskas

Fragmentado é o por-do-sol. De tanto correr pra ainda alcansar o sol, quando chego, não estou mais lá. De noite é mais fácil, basta olhar as curvas da lua. Desapareço no caminho, só assim estou vivo. E sim, depende da companhia. Se posso ser eu, escutar e falar sem nem perceber. Tão difícil. Com tão poucos. De resto, tudo tão artificial.

Adubo- Renê Paulauskas

Vidinha de merda, todo mundo tem uma. É preciso separar o lixo, separar o orgânico em adubo, cuidar da horta. Mesmo assim um tanto enfadonho, acho que até as plantas sentem tédio, só não é científico.

Sala- Renê Paulauskas

É tão vago o espaço da sala. Diferente dos dias de visita, cheios de luzes, sons, cheiros. De luzes apagadas, sou somente um rato. Que se alimenta, espera, e sai. Sou como a barata que vive no banheiro, mal acomodada. Às vezes olho o jardim, segundos depois, não vejo nada. Nenhuma semente a brotar. Nem plantas e cheiros. Nem canteiros, festa ou luar.

Milhões- Renê Paulauskas

Meu amigo é um escravo moderno. Mas nem pensa em ter outro emprego. Trabalha doze horas e só folga um dia por semana. Mas o trabalho é do lado de casa. Não tem consciência de classe, nem sabe o que é isso. Admira seu patrão e prefere ser explorado por eles do que lutar por uma vida mais digna. Meu amigo é complicado. Complicado como a maioria desse povo brasileiro. Que cresceu sem acesso a educação, cidadania e a cultura das classes dominantes.

Revoluções- Renê Paulauskas

Como tudo de desenvolvimento no mundo, aqui no Brasil, acontece cem anos depois, bem que poderíamos copiar a Revolução Russa, de 1917. Apesar de só poder ter sido realmente socialista até 1924, quando morre Lenin e daí em diante Stalin toma o poder transformando a União Soviética numa ditadura sangrenta e implacável. Outra coisa que não sabia é de como a Primeira Guerra Mundial foi importante para armar o povo Russo e deflagrar a revolução. Sem contar a primeira Revolução Russa em 1905, como grande inspiradora para de 1917. Apesar das diferenças é incrível quantas semelhanças vivemos hoje. Governo formado por banqueiros, ruralistas e religiosos (evangélicos aqui). De como seria importante uma reforma agrária, uma democracia direta do povo, um banco popular com juros baixos. Mas como é perigoso termos um grande ditador, como foi Stalin. Por isso se faz necessária a defesa do sufrágio universal. Se não fossem os atuais golpes na América Latina, só através de políticas reformistas, esta...

Crias- Renê Paulauskas

Feliz, passeando semi nú pela casa. Minha filha está bem, tudo está bem. Voltando de um passeio com ela. Pais são seres estranhos que ficam felizes quando suas crias também estão bem.

Quase- Renê Paulauskas

Quase entramos numa guerra nuclear. Por pouco não fomos extintos. É urgente que as coisas comecem a melhorar, urgente! Não vou aguentar mais um ano de Bolsonaro, de quebra de barragem de lama, de poluição de petróleo no mar, agora, risco de terceira guerra mundial?! Pelo idiota do Trump?! É bom as coisas irem melhorando, não foi isso que eu pedi a Deus!

?- Renê Paulauskas

Por mais que esteja são, que os remédios façam efeito, acho que sempre serei dois. Um doido a lá Jesus Cristo, que acredita como Deus o mundo em volta de seu umbigo. Outro são, usando a razão em quase tudo, desvendado o isso do aquilo, o aquilo do aquilo outro. Um que sonha alto, acreditando que tudo é sonho e ilusão. Outro examinando atento o caminho por onde pisa. Serão todos assim?

Meu medo atual- Renê Paulauskas

Meu medo é de que do equilíbrio se faça um túmulo, ainda vivo, mas apagado. Que todas músicas só eram faces do meu descontrole, e quando ouvidas depois, ruidos. Que todo artista é meio louco, e que a minha já acabou, não passando de um mero desenhista de frases soltas, perdidas.

Vinícios de Moraes- Renê Paulauskas

Amava de modo desesperado. Alcoólatra, carente, tipo de gente que sente. Casou nove vezes já sabendo de suas finitudes claras e quase óbvias. Mesmo assim, gênio, poeta, músico. Amava assim desesperadamente a vida.

Bigorna- Renê Paulauskas

O mundo tá uma pólvora, tá uma bigorna. A gente tenta levitar com corrente nos puxando pro chão. Esse mundo tá maior que a ilusão. Tá um verdadeiro mundo cão.

Viver- Renê Paulauskas

Quero quebrar e sair inteiro. Me aventurar sem sair daqui. Olhar as coisas escondidas no nada. Anoitecer de manhã, amanhecer de tarde. Mas existem máscaras. Camadas infinitas de bom teatro. Fechaduras. Segredos. Quem desvendará esses nós? Quem tem as chaves? Na maior parte do dia, autômatos. Piloto automático. Fluxo. Civilização. E o índio ouvindo ruído. Desvendar. Escolher. Viver.

Bom natal- Renê Paulauskas

Neste natal me solidarizo com todos os sem famílias. Os detentos, os doentes mentais trancafiados, os asilados, os exilados, os moradores de rua, os viciados, às prostitutas, os travestis, gays excluidos da família e à todos e todas que neste momento estão separados de suas famílias ou nunca tiveram uma família estruturada. À todos um bom natal. Que resistamos a este dia como um dia de boa solidadriedade humana em tempos difíceis.

O olho e a visão- Renê Paulauskas

Aqui na Terra, nos animais, inclusive no humano, tudo é dividido. Existe o corpo físico, seu organismo, sua química. Do outro lado, sua personalidade, sua psicologia, cultura e espiritualidade. O organismo molda o segundo como um tempero, temperamento. O segundo molda a pessoa à sua hera e às suas afinidades, se tiver escolha. Um não existe sem o outro. Um é o olho e o outro a visão.

Buscar- Renê Paulauskas

Buscar valhe a pena quando se vê os resultados. Pelo menos tem sido assim comigo no quesito, relações sociais. Tudo porque meu melhor amigo arrumou uma namorada e não tinha quase tempo se quer pra ele. Assim fui me virando como podia. O resultado foi uma ampliação da minha rede social, conhecendo pessoas novas, mas sobre tudo, fortalecendo laços antigos. Quando já tinha deixado meu melhor amigo em paz, ele aparece em casa. Falo das novidades e me sinto bem em ver quanta gente interessante, novos contatos, antigos amigos, vi nesse período.

Sem trégua!- Renê Paulauskas

O pulsar animal humano não é mais humano. Virou máquina, negócio, exploração. O capitalista querer sempre mais não é novidade. O conter, tentaram vários. O extinguir, já pensaram. Até que seja exigido que todo, ou toda, capitalista devolva à sociedade tudo que roubou dela mesma através do acumulo de capital por meio da exploração do trabalhador, e volte a ser humano, não sossegaremos!

Ciência-Renê Paulauskas

A memória, não é perfeita. A interpretação, traiçoeira. Quem sabe a razão pode estar doida. Ou haja lucidez na loucura. Desde que não seja um idiota estilo acadêmico. Quem sabe o muro se rompa. Haja menos regras, mais beleza. Mais verdade, menos certezas. Quem sabe já mudou o mundo milhões de vezes e só falta você saber.

Lado de fora- Renê Paulauskas

Tristes não são os trancados do lado de fora, são os que trancam. Muitas histórias ouvi da solidariedade dos que vivem nas ruas. De suas leis, de sua ética. Já aqueles do outro lado dos portões, não digo nada. Um amigo morador de rua me confessou uma vez que tinha preferido as ruas à sua família. Que com todas as dificuldades, está melhor assim. Que sua família é de evangélicos fanáticos. Por isso preferiu sair de casa. É uma pessoa tranquila, amorosa e sorridente. Penso em quantos como ele. Mas não sinto pena dele, ou de nenhum outro. Sinto pena dos que não os enxergam. 

Conjugação- Renê Paulauskas

Se ela aparecesse talvez eu melhorasse. Mas ela não vem, não porque não quer, de quem já foi e não é mais. Porque ela se quer existe. É mera especulação. Sendo assim, eu vou. Fosse o contrário seria mais simples, de fato. Mas não é. Então saio daqui a pouco, esperando o que houver, pois sei, que melhor que esperar ou imaginar, é agir e atuar.

Contra a corrente- Renê Paulauskas

Na cidade grande o ''eu'' parece maior do que ''outro''. Existe o individualismo. O resto não é visto como gente, são somente ''serviços'' para nutrir a um ego solitário errante. Desse destratar, desidratando a humanidade, funciona o motor da cidade. Dessa catástrofe feita encima de um capitalismo arcaico, o ser humano tenta continuar humano, mesmo lutando contra a corrente.

Tapete de areia- Renê Paulauskas

Atrás de um por-do-sol tem sempre um nascer do sol. Coisas vão, outras vem. É desse complexo quebra-cabeça nossa vida. Seja budista. Como quem se despede de um longa pintura de areias coloridas após ser levada pelo vento. E em seguida começa a pintar outra. Falar é fácil, eu sei. Mais fácil quando chega a novidade.

Leveza- Renê Paulauskas

A gente é feliz quando é aceito, e pode amar com leveza. Tem sempre alguém contrário, no lugar errado, que não é feliz, pelo menos naquele momento, com aquelas pessoas. Mas isso passa. É verdade que antes de se achar tem de se perder. Mas depois, tudo fica mais fácil, mais leve.

Que medo- Renê Paulauskas

Tenho medo da ''Pompeia sem medo''. A classe média em peso desfilando com seus cachorros todos iguais. Os cachorros identicos, uns dominando os outros, subindo, copulando, exercendo poder. E o dono lourinho ainda criança falando: ''Isso, Tobi, porrada!''. No evento, o único negro estava lá para entreter os brancos. Foram todos aprender maculelê, onde ouvi um dizer: ''Aqui só tinha mendigo, temos que ocupar essas praças''. Onde todos se conhecem e não cumprimentam estranhos. Tenho medo!

Envelhecer- Renê Paulauskas

Depois de certa idade percebi que nada mais vinha de graça, tudo era luta. E como quem perde a vida, fui encolhendo, ficando pequenininho. Já não tinha rosto. Já não tinha sexo. Era como um ser deficiente. Com o tempo fui ficando sem voz também. Era um estorvo, um inválido. Até me largarem aqui, esse quarto esquecido. Envelhecer é realmente uma bosta!

Caolho- Renê Paulauskas

O preconceito me olhou. Me pôs uma máscara. Em seguida desviou o olhar. Esse olhar caolho, errado e certeiro. Tantas vezes esse preconceito me furou os olhos, hoje, ele me olhou. Me maltratou um pouco, só um pouco. A ponto de me fazer sentir ódio. A ponto de fazer eu tirar a barba mal feita, vestir uma camiseta menos larga. Mas não foi só comigou. O preconceito tapa muitos olhos, vestindo à todos como bem quer.

Os quarenta- Renê Paulauskas

Eu pensei que aos quarenta ia expandir, mas descobri que é mera expansão por constatar um desolado recrudecimento, tanto de energia como de perspectivas. É como nadar contra as correntezas, mas fraco. A mente, congelada no tempo, ainda é jovem, mas o corpo perdeu vigor. Uns mais, outros menos, mas todos desesperados para alcansar a outra margem do rio como uma grande vitória. Eu, que nasci velho, envelheci jovem, hoje, honestamente, não estou muito feliz com a minha condição.

Breve- Renê Paulauskas

No fim da minha juventude, com 29anos, tive um caso com uma escritora casada com um professor de literatura. Dessa aproximação, tanto dela, como de seu marido, nasceu uma amizade entre artistas que tinham em comum o prazer de desenhar, esculpir e escrever. Meus primeiros incentivos à escrita devo a esse casal. Um grande amigo da época, também escritor, a conheceu, e se apaixonou. Esse período terminou com o fim das quatro relações envolvidas  e marcou nossas vidas com profundos ressentimentos. Olho para trás, vejo quantas coisas boas vivemos naquela época. Quão destemidos éramos, jovens e ignorantes. Mesmo assim, sabíamos amar. Nunca mais nos vimos, pelo menos, não com a mesma franqueza. Só para você ter uma ideia, demorou mais de dez anos para escrever esse breve texto. Gostaria de vê-los denovo, mas não como seria, depois da distância de mais de dez anos. Como se fosse possível voltar no tempo, mas sem ser tão ignorante. Por esse motivo, esse evento marca a passagem do fim d...

Vermelho- Renê Paulauskas

A camiseta vermelha sobre a bermuda, lembra sangue. Pomba ferida, quer voar mas não pode. Somos atacados constantemente, até pelos que se sentem perseguidos. Sangue! Até quando vamos nos odiar, dar o troco? Olho por olho, dente por dente, deixou a humanidade cega, já dizia Gandhi.

Equilíbrio- Renê Paulauskas

Em casa reponho as energias. O mundo lá fora as suga, como fogo pegando em papel. É preciso se cuidar. Mas é lá fora que o mundo gira, as coisas acontecem. Não dá pra só se esconder em casa. É preciso um equilíbrio. Éssa talvez seja a parte mais difícil.

Aprender- Renê Paulauskas

Deus me livre de ser doutor e ter mais certezas do que dúvidas, um burro com certificado. Quero estar sempre aprendendo sem precisar passar na prova. Estudando coisas inúteis que só tem sentido pra mim. Me moldando, me descobrindo. Ser uma criança, não importando a idade.

Pipoca pós-moderna- Renê Paulauskas

''Pipoca aqui, ali, pipoca aqui. Desanoitece a manhã, tudo mudou'' Pipocam novamente novas ditaduras na América Latina. Dessa vez com a tecnologia de manipulação das massas através do controle da grande mídia e de disparos em massa de fake news. Essa estratégia, chamada guerra híbrida, se mostrou mais eficaz do que o controle pela força.

Abuso sexual infantil- Renê Paulauskas

Milhões de crianças são abusadas sexualmente no mundo inteiro. Normalmente por parentes próximos, vizinhos de confiança, ou pessoas próximas. Isso gera um trauma indissolúvel pro resto de suas vidas, paralizando pra sempre esse momento em suas cabeças. Desconfiança no próximo, insegurança, tristeza, são características típicas pós trauma. Podendo retardar o desenvolvimento natural de sua sexualidade, assim como a paralizá-la nesse período da vida, causando possíveis fixações em indivíduos da idade em que foram abusadas. Esse processo é muito doloroso e só passa a ser parcialmente resolvido, quando passado pelo período, ou períodos, de conscientização e luta para vencer o trauma e ter uma vida normal. A pessoa acometida desse tipo de trauma, se culpabiliza pelo ato, tendo muita vergonha, o que dificulta o processo de poder falar sobre o ocorrido.  Tabu e proconceitos só atrapalham nesse processo, às vezes paralizando ainda mais. Mas em muitos casos há uma significativa melhora se...

41- Renê Paulauskas

Agora, perto de fazer 41anos, vejo as coisas um pouco diferentes. Não perdi o interesse pela vida, ainda gosto de rir como era jovem. Mas tenho menos pressa. Já vivi um pouco um bocado de coisas para saber que nada vale tanto. Não desisti de viver, apenas estou mais cansado, calejado. É triste, mas começo a acreditar que não terei mais grandes alegrias, que não seja uma vida tranquila, sem grandes sofrimentos.

Portas- Renê Paulauskas

Abro portas, uma parede tapa a passagem. Abro outra, dezenas de objetos perfurantes. Respiro, deixo passar. Olho o dia ensolarado, sem portas para abrir. E o que é esse labirinto, onde os outros são portas? No canto da sala, com sua porta aberta, escrevo.

Celulares- Renê Paulauskas

Como viver o mundo se está do avesso? Eu mesmo, dentro deste ônibus voltando pra casa, tantas vezes voltei conversando com vizinhos, ou até desconhecidos, hoje sozinho escrevendo pra você deste celular. Volto de uma aula que tentava ensinar como seria bom se entendessemos nós e mundo como uma coisa só, como pensam os índios. Em vez, cada vez mais fragmentados, vazios. Acabou de sentar uma mulher ao meu lado. Ela também está no celular.

Prece- Renê Paulauskas

Quando quero muito alguma coisa, peço a Deus. Ele sempre dá o que foi pedido. Mas tomo muito cuidado ao pedir, pois ele entende tudo ao pé da letra, não adivinha nossos desejos. Uma vez pedi uma namorada, não muito bonita, pra que tivesse outros valores, mas isso não falei na prece. Veio uma mulher feia, que se achava linda. Pedi também que trabalhasse com eventos, pensando que ela poderia me agenciar. Resultado, ela de fato trabalhava com eventos, mas não queria misturar a relação pessoal com a profissional. Por fim, pedi que fosse meio maluquinha. A mulher tinha surtos comigo todo mês não durando seis meses nossa relação. Então é isso, Deus sempre atende as minhas preces, difícil é traduzir pra ele o que realmente eu quero.

Garrafa- Renê Paulauskas

A mensagem está dentro desta garrafa. Ouça-me, leia-me. E mostre algo, para que eu tenha o mesmo privilégio. Mas correntes marinhas são traiçoeiras, às vezes mensagens são esquecidas, ignoradas ou nunca encontradas. Às vezes até, não traduzidas, compreendidas ou lidas. Mesmo assim as mando, daqui da ilha. Onde ficaria louco se não as mandasse.

Mendigo não! Eu tenho nome- Renê Paulauskas

Me perco num átimo de segundo, me acho no vazio da cidade fria, atravessando a floresta da minha cabeça. Me movo no chão duro, até encontrar o conforto entre a reta do meu corpo com o horizonte. Mas sempre algo me dá um soco de realidade. O vento gelado, as formigas, sem contar os fardados que chutam, nos levam as roupas, quando não nos matam. O único jeito de dormir é apagar. Seja o álcool, a pedra, que nunca tem esses nomes na quebrada, mas pra vocês faço uma dublagem. Viver na rua não é escolha de nínguém, é a falta dela.

Vapores- Renê Paulauskas

Quando brotaram os primeiros vapores, deixando o ar morno e úmido, tudo era mágico e novidade. Mas fora só segundos, que fizeram parar o tempo. Em seguida o tempo agiu rápido junto à aridez do mundo. Racionalizei e me afastei daquele instante como algo reprovável. Depois fui entender que o que me conduzira naquele dia fora um gesto. Um gesto limpo que me dava base de sustentação para outras coisas. Ou teria interpretado assim. Mas declinei. Esperaria outros gestos em outras pessoas que estivessem mais ao meu alcance, ou em circunstâncias mais afáveis. Mas ainda sim sabia que o gesto poderia me tocar, fosse ele por quaisquer gênero ou orientação fosse ele feito.

Solidão- Renê Paulauskas

A vida é solidão que vem, solidão que vai, solidão que volta. Fragilidade de um corpo mortal em meio a cidade grande que te devora. Não poder se firmar, se não em outros. Não poder ser só, ter mais a aprender. Mas existem aqueles, que tão sós, falam consigo em voz alta. Exaltados já não enxergam quase ninguém, por serem invisíveis a muito tempo. São chamados de mendigos, loucos, indigentes. Ficaram sem quem os ouvisse tanto tempo, agora nínguém tem corágem de os escutar.

Lula livre!- Renê Paulauskas

Lula foi solto. Depois de muita luta, o que já parecia impossível, enfim aconteceu. A ficha ainda não caiu totalmente. Queria ir pra rua comemorar, mesmo com essa chuva em São Paulo. Voltar a sonhar. Imaginar pretos, pobres, minorias galgarem direitos. Num futuro existir menos diferenças sociais. Menos privilégios dos mais ricos. Agora com Lula solto é hora de voltar a sonhar. Evoé Luis Inácio Lula da Silva!

Mosca- Renê Paulauskas

Passo, precipício. Renasço, eterno retorno. Eu já morri, renasci muitas vezes. Sou como uma mosca presa numa redoma de vidro. Nasce da larva de outra mosca, até virar mosca e deixar outra larva antes de morrer. Redoma de vidro, você não é o mundo, só a jaula à que venho perecer. Quebrai o mundo, quebrai! Pra que outros mundos venha a mosca conhecer.

Perfeccionista- Renê Paulauskas

O artista perfeccionista busca um equilibrio que não tem. Procura algo para apaziguar a falta, a dor e demônios. Debruçasse com empenho nessa tarefa, mesmo às vezes sendo preguiçoso. Chega a ser ansioso para conseguir alcansar tudo aquilo que vem a sua mente, mente essa, desequilibrada.

Telhado de vidro- Renê Paulauskas

Derrepente as pessoas parecem estranhas. Uma mancha às escurece e sinto medo de sair à rua. Todos parecem perigosos, como eu. E o que ganho com isso, além de desconforto? Ninho de cobras. Rezo para me aliviar, depois penso, que atire a primeira pedra quem não tem telhado de vidro.

Sofá- Renê Paulauskas

Eu fui louco, mas um louco cosciente. Nunca perdi a razão, a ampliei até onde pude, aproveitei ao máximo cada abertura de cosciência afim de me tornar mais sábio quem sabe. Assim, descobri coisas, segredos, que nínguém acreditaria. Por isso mesmo parei de contar. Mas não deixei de acreditar, fui só parando de falar. Depois, de bastante tempo, fui me acomodando no sofá, com todos os móveis em volta, a TV ligada, e fui parando de sonhar. O mundo envolta foi solidificando, de fora pra dentro até a sala e fiquei preso no sofá. Quando vi já era tarde, tornara-me preso de um pesadelo criado por mim para acordar. Despertara no pior momento que o mundo estava, mas levantei-me do sofá.

Passagem- Renê Paulauskas

Viver com intensidade é viver um dia intensamente e descansar duas semanas. É mais, alcansar os céus, e passar mais de uma década em expiação por desvendar o proibido. Que esse mundo é muito careta, cheio de regras, mesmo que não as veja. De certo modo tem um sentido: O de dar reintegração física e espiritual aos que estão aqui de passagem.

Alguém- Renê Paulauskas

Abri as portas, deixei o ar circular. Tudo estava limpo, até o ar. Respirava, entrava e saia vida. E à meia luz fui me acalmando. Tudo por causa dela, que elgiou o meu poema. É incrível como a vida pode vir de onde menos se espera. Mas não a conheci, trocamos poucas palavras. Amigos em comum, pintora como, logo fui embora. Não era ela, mas sim o toque de quem tinha sido tocada, justo o poema solitário.

Frankeinstein- Renê Paulauskas

Junte a sabedoria de um louco, que sabe as coisas do mundo, mas se cala pra não ser encarcerado, à consciencia maternal da mulher brasileira, mulher que foi abandonada pelo pai da criança, que criou o filho sozinha, só com o apoio de outra mulher, sua mãe. E tudo isso à resistência do jovem negro, que sempre lutou desde tempos de escravidão, hoje resiste ao preconceito se virando como pode, na maioria das vezes longe das estruturas da elite e classe média branca. Juntá-se tudo isso, dá um perfeito revolucionário. Um Frankeinstein revolucionário! Imagine agora um exêrcito deles.

Normal- Renê Paulauskas

Dentro de mim há vários. Às vezes um estribilho vem de dentro, como uma voz, mais rouca, meio assustadora. Mas como ela vem ela vai. E tudo continua normal.

Estera- Renê Paulauskas

Cansado de sair por sair. Ir em saraus desconhecidos, beber em bares conhecidos, e no final, voltar quase sempre meio vazio, sem novidades. To me poupando pra algo que valha mais a pena. Cansado de correr em estera.

Envelhecendo- Renê Paulauskas

Envelhecer é um processo natural. Os homens vão criando barriga, as mulheres perdendo a cintura. Quando se tem filhos e eles começam a chegar à vida adulta, fica claro que já não somos tão jovens. Mas continuamos vivendo. Sentindo, errando, buscando. Esse é o processo natural e saudável de envelhecer.

A vida- Renê Paulauskas

A vida é assim: às vezes um peso quase maior do que dá para carregar. Até que tudo começa a dar certo, uma beleza! Daí, tudo voltou ao normal e o negócio é seguir enfrente.

Espelho vazio (filosófico) - Renê Paulauskas

Um solitário na multidão é mil vezes mais solitário de quem está em casa, tranquilo. A falta de contato se multiplica em cada não contato. E reflete um vazio que é maior ainda, o vazio da grande cidade. Esse buraco é dilatado por onde passa o transeunte refletido em outro, anônimos como ele. Imprimindo o vazio do não relacionar-se em sua face frente ao espelho.

TV- Renê Paulauskas

Não aguento mais conhecer o mundo pelo Globoreporter. Melhor ir até Sapopemba pela TVT. Ou passar o domingo na TV Cultura. Como TV é importante na terceira idade. Pelo menos escrevo quando ela está desligada.

Descansar- Renê Paulauskas

Melhor ficar em casa, descansar. Deixar passar todo mal estar. Aproveitar que hoje não tem lua nem sarau.

Sangrando- Renê Paulauskas

Sei que ainda é cedo para sair, que deveria antes cicatrizar os ferimentos, repousar. Mas a sede de viver é muito grande. Prefiro viver sangrando que morrer em vida.

Lutar- Renê Paulauskas

Quando vejo defeito nos outros, me afasto. Quando vejo em mim, me calo. Ninguém é perfeito eu sei. Porém, é preciso se afastar do pior, fazer de tudo para melhorar. Ou, se não, não há motivo pra continuar.

Recomeço- Renê Paulauskas

Depois da enchente me mudei pra uma casa menor. Móveis só os necessários. Os potes vazios, as roupas que não usava, joguei fora. Levei só o estreitamente necessário e alguns itens que admirava. Para um recomeço até que está muito bom.

Pote- Renê Paulauskas

Vazio, opaco, rachado. Nosso pote quebrou. Mas quebrou com o tempo. Foi perdendo a cor, com o tempo ficou vazio, paciência. Que venham outros potes. Cheios e coloridos. Na vida existem muitos. Tantos, a ponto de ser injusto se importar com aqueles sem vida.

Mancha- Renê Paulauskas

Minha mão está manchada, é preciso cortá-la mas não tenho corágem. Antes, meus pés foram manchados, suas solas tingidas de um preto que por mais que andasse descalço não saiam nem que as esfregasse com força. Meus pés foram tingidos muito cedo, sem que precisasse. Desde cedo luto, e não passa. Já lutei com quase todos que me mancharam os pés. Mais altos, mais fortes, mais velhos. No caminho dei socos até em quem amei um dia. Hoje estou mais velho, velho pra lutar. Tenho que aprender outra maneira de brigar. Mais calmo, menos impaciente, mas ainda de solas dos pés encardidas, me controlo, pra não ser eu a manchar os pés de outra pessoa. Mas é difícil, é uma coceira constante.

Real?- Renê Paulauskas

Esse mundo artficial e programado às vezes parece incrivelmente real. Não importa quantas vezes tenhamos girado a roda, chegando nos mesmos caracteres e símbolos dentro de nossos circuitos, é uma sensação nova, única, pelo menos assim parece. Esquecemos de tudo e por poucos segundos, vivemos.

Amanhecer- Renê Paulauskas

Quando vivo não preciso escrever, basta gente viva como eu. Pra fazer tudo que o bicho homem pode. Tocar, falar, tocar. E o que transmite de eletrecidade, este contato E que tudo o mais desabe, toda estrutura decomposta, todo sistema falido. Mesmo em um gesto perdido num amanhecer, num sábado qualquer. Só pra dizer, estou vivo, e nada mais preciso.

Madruga- Renê Paulauskas

No meio da noite todos gatos são pardos. Janelas dão em portas, portais da madrugada. A novidade tira o sono, desperta a alma. Serenidade é fundamental nessas horas. Viajamos através das pessoas, seus mundos, nossos espelhos.

Sarau- Renê Paulauskas

Dispersos olhares gazosos. Obliquos, ligeiros, individuais. Até acender a fogueira. Focados no som, envolta o silêncio. Filhos, querendo peitos e leite etílico. Ares gazosos, de fumo e de cores. Mas no quarto ao lado, dorme uma criança morta.

Pomba- Renê Paulauskas

A pomba morta na entrada de casa não era um presságio, nem um avizo, era ela, a própria pomba, que não conseguiu voar, não conseguiu fugir, em pedaços, penas, víceras, membros espalhados.

Sonho-Renê Paulauskas

Sou filho de uma ditadura de um mundo dividido entre dois polos, comunismo e capitalismo. Quando nasci em 1978 no Brasil, já estavam preparando a anistia. Em 1985 foi o fim da ditadura no nosso país, com a vitória das diretas. Na redemocratização nosso primeiro presidente eleito foi o Fernando Collor, que saqueou a poupança do povo e foi impeachmado depois. Após veio seu vice, Itamar Franco, e depois eleito o Fernando Henrrique Cardozo. FHC controlou a inflação criando a moeda Real, mas entregou as estatais ao capital estrangeiro. Em 2002 o Lula foi eleito, daí seguiram 13 anos de desenvolvimento e consequente diminuição das desiqualdades pela primeira vez desde o meu nascimento. Tudo isso sem mexer nos privilégios das classes dominantes. Dai veio a descoberta do Prê-sal, a maior reserva de petróleo das últimas décadas. Ouve um golpe para tirar a sucessora do Lula do governo, Dilma Roussef. E estão fazendo de tudo para roubar o nosso petróleo e perdermos a chance de nos tornar um país...

Intocado olhar- Renê Paulauskas

Você que era tão real se desfez. Virou água, pó, fumaça. Do sonho de encontrá-la sobrou somente seu olhar. E quanto mais real, mais distante fica sua face. Intocado olhar.

Cola- Renê Paulauskas

As coisas fixam em mim o tempo todo. Ficam horas, dias, anos. Devo ter uma cola que gruda tudo. Ideias, imagens, sensações. Queria ser liso, que tudo escorregasse sobre mim como água.

Sutil mundo cão- Renê Paulauskas

Loucura mesclada com premonição, loucura. Ideias insensatas para um mundo insensato. Injusto, governado pelos que não tem coração, psicopatas. No meio das incertezas, rastejo. Ansiedade desgovernada. Sutil mundo cão.

Silêncio- Renê Paulauskas

A mensagem afundou com a garrafa no fundo do mar. No meio do silêncio do oceano se decompos. Comida pelos peixes, esquecida, nunca lida. Quem diria que minha mensagem serveria de alimento no fundo do mar.

Dominadoras- Renê Paulauskas

Mulhetes dominadoras são diferentes de homens dominadores. Um pouco mais sutis exigem fidelidade e consulta sobre todas as decisões relacionadas ao casal. Odeiam não serem consultadas e pegas desprevenidas em situações que não concordam. Lembro bem da cara da minha ex mulher ao eu levar um colega caricaturista para passar uma noite em casa no dia em que seu apartamento pegou fogo. Ou até de uma ex namorada que quando me viu conversando com alguns amigos no lugar em que tínhamos marcado encontro não teve vergonha em fazer cara feia ou reclamar comigo depois.

Aprendi?- Renê Paulauskas

Aprendi. Aprendi que nesse mundo não adianta forçar as coisas. Não se força o amor, nem amizade, melhor mesmo é não forçar nada. As coisas tem um ritmo certo pra acontecer, muito mais lento e também dinâmico. Os acontecimentos se encaixam em acasos, os desencontros se perdem no tempo. A vida se encarrega de trazer o fruto e de levar as sobras. Mesmo sedentos, a vida dá um jeito.

São Paulo- Renê Paulauskas

Devolta! Ah, São Paulo, São Paulo das multidões. Onde tem de tudo, até a ausência sobra. Onde cada um é um mundo e mesmo assim insignificante. Minha cidade não é o mundo, mas meu mundo está nesta cidade.

Mal humorado- Renê Paulauskas

Voltando pra casa, de Itu para São Paulo, chego a uma conclusão notável: A humanidade tem milhões a mais de pessoas boas do que ruins, mas é governada pela pior faixa, aqueles que não tem humor.

Vida- Renê Paulauskas

Viver não é difícil, mas controlar a ansiedade de uma vida bem vivida é. O tempo ajuda, a ansidade dos quarenta anos é quase nula se comparada a dos vinte. Mesmo assim, aquele resquício, projeta mundos, sonhos. E é exatamente por esses momentos que chamamos vida e não apenas sobrevivência.

Insólito- Renê Paulauskas

Depois de acordar sem fôlego por ter esquecido de ligar o ar no quarto de final 66, minha viagem começa a ter ares insólitos. Mesmo assim vou dar uma caminhada, ver o que tem de bom nessa pequena cidade chamada Itu.

Piada de mal gosto- Renê Paulauskas

Discurso de Bolsonaro na ONU mente descaradamente criando vários bode expiatórios. Faz dos médicos cubanos que vieram trabalhar no Brasil, de médicos formados e capacitados em vítimas de trabalho escravo. Das ONGs que trabalham pra proteção das florestas e da Amazônia, empresas à serviço de outras nações interessadas não na proteção do meio ambiente, mas nos metais preciosos embaixo das terras indígenas. Seria para rir se não fosse ouvido e com risco de ser levado a sério pelo mundo.

Luto e luta- Renê Paulauskas

Ontem foi um dia de debates sobre o genocídio em amplos aspéctos no Ponto de Economia Solidária do Butantã, zona oeste de São Paulo. Falaram sobre os desaparecidos da ditadura, mas também dos sempre desaparecidos pretos da periferia. E um cacique que entrou por acaso no evento, falou da maior população exterminada, os índios. Terminamos o encontro na frente da casa do Dinho, liderança ali na região. Sua mulher após ouvir o cacique falar disse que ouviu de um indígena numa viagem que os índios do Brasil iriam ficar calados por quinhentos anos, e que agora, já tinha passado esse prazo. Fomos todos pra casa cansados de debater assuntos tão densos, mas fortalecidos e renovados.

Tempo- Renê Paulauskas

O que fazer do tempo quando temos tempo demais. Minha mãe dorme, muitos enchem a cara, há quem passeie, procure o que fazer, eu faço tudo isso e ainda me sobra um tempo absurdo. Antes assim do que não ter tempo pra nada.

Sagitario- Renê Paulauskas

Em breve irei viajar, depois de descansar dessa reforma. Faz muito tempo que não viajo. A última grande saída foi seis meses pelo Brasil. Dessa vez vou aqui pertinho, interior de São Paulo. Pra matar um pouquinho a saudade, e não perder o jeito. Afinal, sou um sagitariano.

Telhado- Renê Paulauskas

Estou cansado, exausto pra ser mais claro. Dum cansaço na pele, nos poros, na alma. Cansado a dias, semanas, a quase um mês. Mas hoje durmo. E quando acordar terá tudo passado. E terei um telhado novo. Até recomeçar. E ficar cansado mais uma vez.

Ditado pra mim mesmo- Renê Paulauskas

Destruir é mais fácil do que construir. Por isso, não perca tempo destruindo, deixe isso ao tempo. Também não tente construir um castelo atrás do outro para que desfaçam-se como areia. Aproveita a inspiração e aí movesse. De resto deixa ao tempo, só depois recolhe os destroços.

Vós sois Deuses- Renê Paulauskas

''Vós sois Deuses''. Quando falei alto essa fraze, com essa pronúncia arcaica, não sabia o que estava falando. Estava internado no pronto socorro psiquiátrico pela primeira vez depois do meu primeiro surto psicótico cheio de alegorias religiosas. Mas aquela linguagem, inacessível pra mim, naquele tom, provocou um verdadeiro choque nas pessoas que ouviram naquele instante, as deixando petrificadas. Hoje desconfio da possibilidade de ter recebido essa mensagem de algum espirito, talvez do próprio Jesus. O episódio passou, mas a mensagem ficou. Repasso alhures até além dos montes, amém.

Lobo do homem- Renê Paulauskas

Aquilo me pareceu monstruoso, a insensibilidade, falta de empatia. Mas era só humano. É que o ser humano é monstruoso mesmo. Um bicho diferente dos demais. Mais frio, egoista. Com a razão engendrada em papeis que nada tem a ver com a sensibilidade própria de outros mamíferos. O homem é o lobo do homem.

''Liberdade''- Renê Paulauskas

Às vezes é como fazer parte de uma experiência, rato de laboratório. Outras, transborda nos olhos algo, até ratos sentem. Nos controlam, olhos de todos os lados. Não somos livres, é tudo uma ilusão. Mesmo assim, quase vivos, quase livres, fazemos do quase nossa liberdade.

Desejos e intenções- Renê Paulauskas

Pode ser viagem da minha cabeça, mas às vezes parece que cada pensamento emitido produz uma consequencia física, seja no espaço ou um efeito colateral no próprio corpo. Uma espécie de comunicação direta dos nossos desejos e intenções.

Ela- Renê Paulauskas

Quando vejo uma mulher como ela, vejo o mundo novamente. Vontade de conhecer tudo denovo. De namorar, viajar, ter filhos, casar... Quando olho pra ela é um presente, um estar vivo.

Boxe- Renê Paulauskas

Apanhei, apanhei muito. Mas nunca me derrubaram, ou deixaram-me incosciente. Resisti, outras revidei. Mas sempre intocável, pelo menos aos meus princípios. Assim continuo lutando. Apanhando, mas nunca me curvando ao que não concordo.

Sambadas- Renê Paulauskas

Sambadas é um grupo paulista de samba só de mulheres. Fui em duas apresentações, ambas no final da Cardeal Arcoverde em pinheiros. É um local lésbico, por isso, quem não é precisa chegar de mansinho, respeitando o ambiente. O som é de primeira, vale a pena experimentar!

Criar- Renê Paulauskas

Para de pensar no tempo. O futuro é tão impreciso como seu pensamento. Um depende do outro, então pensa. Mas vive, se não de nada vale a pena. Cria o dia, e interage com ele.

Ser humano- Renê Paulauskas

O ser humano é aquele ser que mal se cura de uma ressaca, lá vai ele encher a cara denovo. Aquele que só vive o presente buscando o prazer, deixando de lado a razão, sem pensar em futuras dores de cabeça. Um ser irracional, que só pensa, depois.

Reforma- Renê Paulauskas

Dentre todas as possibilidades de passeio, a impositiva e concreta certeza da chuva num dia frio. Hoje, fico em casa. A calmaria, nesses dias de reforma, é tão necessária como procurar ar fora de casa.

Bicho- Renê Paulauskas

Quando acordei tinha uma pomba ferida no meu quintal. Moribunda, ainda viva, não voava mais. Entrei em casa deixando o animal em paz. Quando voltei vi ao seu lado o vil gato que a atacara. Dei um chega pra lá, mas sabendo que o bicho volta. O que fazer não sei. Estou meio preocupado.

Verdades em um mundo de mentira- Renê Paulauskas

Tudo no texto era verdadeiro, só o mundo que era invenção. Não o mundo escrito, mas o habitado pelo escritor.

Texto moribundo- Renê Paulauskas

Morre alguém como nasce num outro lugar.

Sala vazia- Renê Paulauskas

Passo pelos objetos calados em seus cantos, tão vazios, quase miragens de um solitário. Mesmo assim corro, me desloco no fluxo até voltar cansado. Sempre a mesma procura, cada vez mais escassa, se sentir vivo. Volto aos mortos, reconforto com uma mãe companheira, uma fiha amiga e poucos amigos. Pensando bem, a vida sempre pareceu bem vazia.

Morte encomendada ao presidente Lula- Renê Paulauskas

A decisão de transferir o ex presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o presídio de segurança máxima de Tremembé, interior de São Paulo, tem interesses explícitos e implícitos. O motivo mais óbvio é o de, agora que a Lava Jato está sendo desmascarada, associar o Lula a um presidiário perigoso. No presídio de Tremenbé estão encarcerados os psicopatas mais perigosos do Brasil e do mundo. Negar uma cela particular num presídio dessa periculosidade, e incomendar a morte do ex presidente, num lugar onde a maioria está condenado por homicídios, pode ser um dos motivos implícitos.

Racismo- Renê Paulauskas

O racismo está entranhado em toda sociedade brasileira. Principalmente o de julgamento social. Aquele que teme o preto pobre da favela, mas que é refletido pelo professor universitário à subestimarem seus alunos cotistas, por exemplo. O preconceito está em acreditar que as classes dominantes são superiores às classes populares. E toda uma cultura de subordinação do popular ao clássico. Como um desprestígio do popular negro e periférico como algo perigoso. E em fazer esse tipo de associação a qualquer pessoa por sua cor.

Decantação- Renê Paulauskas

Hoje tá muito frio, ninguém sai de casa. Pensamos na vida, decantando aos poucos, até entendermos de fato.

Ilusão (filosófico) - Renê Paulauskas

Esse mundo é de ilusão, às vezes tão densas que provocam dores, feridas. Só o desapego nos afasta de certas armadilhas. Ciladas existem o tempo todo. É preciso saber onde se pisa. Quanto maior o desejo, maior o tombo.

Drogas- Renê Paulauskas

Drogas, pra que te quero? Me deste outra vida, mesmo que invisível. Me tira o desconforto do dia, mesmo de noite. Quando vejo, já não vejo nada. Sou guiado pelo desejo, que seca a boca e diz amém.

Monstros- Renê Paulauskas

De tanto deletar sobrou só a tela em branco. Que fazer se nada últimamente o interessava? Esperava um encontro, algo novo, que renovasse o ar. Em vez disso, monstros, tão pesados em seus corpos, cuspindo, arrotando e peidando, como se fosse a coisa mais natural. Estava difícil de encontrar ar fresco em meio a cheiros tāo desagradáveis.

Resíduos- Renê Paulauskas

Resíduos contaminados coçam minha pele. É preciso tomar um banho. Evitar as rotas contaminadas. Em quarentena. Esperando passar essa curta fase de lixo humano. Que ventos novos refresquem o céu.

Frio- Renê Paulauskas

O peso da minha cabeça retarda o movimento dos meus pés. Caminhando pareço não chegar a nada. Mas a paisagem muda, semana a semana. Chá, toca, blusa de frio. É difícil se esquentar neste inverno.

Sinais de vida- Renê Paulauskas

A vida parece retomar donde parou. Os semáforos se abriram. Já não faz tanto frio. E esse mundo não é nada do que esperávamos, ainda bem!

Em casa- Renê Paulauskas

Hoje não quero pegar trânsito, não quero pegar fila. No dia em que todos querem sair vou ficar em casa. Protegido do frio e das pessoas loucas. Tomando um chá com mel ou chocolate quente.

Lento- Renê Paulauskas

Tinha esquecido como é ser ''normal'', e ter que engolir todos os sapos agindo da melhor maneira, como se nada tivesse acontecido. Melhor nos afastarmos dos problemas, gente mal intencionada há em toda parte. Não perder muito tempo pensando nos problemas, também faz parte. Caminhando lentamente.

Enfim- Renê Paulauskas

Aceito denovo à vida, sua arte começara a falhar. Tocava o violão e nenhuma música boa para gravar. Escrevia em seu blogue e após, deletava. Que estava por vir? Será que enfim teria sido aceito ao mundo com todas chances de medíocres seres humanos mais uma vez? Certeza não tinha, podia ser só mais uma de suas ideias.

Walk- Renê Paulauskas

Fiquei, fiquei chateado sim. Quantos socos na cara mais vou levar? Mas estou me curando, ainda de ressaca. Sim, já limpei os meus contatos. Estou clean, light. Limpo, sem passado, pronto pra caminhar.

Vdd- Renê Paulauskas

Se na própria família encontramos gente que mal aguentamos. Que dirá lá fora, no meio desse mundão.

Insólito- Renê Paulauskas

Gente, o insólito se encontra dentro. Entre os parafusos, na perda auditiva da razão. Isso não quer dizer que não pensa. Pelo contrário, pensar demais às vezes tira o foco das coisas. E se alcança outras coisas, coisas essas anormais. Só vais ter assunto com outros tais, que foram além também.

Gente- Renê Paulauskas

Mar de gente. Gente que vem, gente que vai. Gente difícil de tocar. Gente difícil de se aproximar. Gente indiferente. Gente sorridente, que se dá. Gente que convida pra jantar. Gente que te toca pelo olhar. Gente. Gente que vem, gente que vai, gente que fica.

Ibernar- Renê Paulauskas

Hoje tem muita coisa, tem coisa alguma. Tudo que é sólido desmancha no ar. Vou me jogar de cabeça no sofá da sala. Sonhar com dias melhores. Inverno é bom pra ibernar.

Batalhas- Renê Paulauskas

Esse mundo é de batalhas. Índios caçados por colonizadores. Mas os vikins se pacifiraram, viraram o mundo desenvolvido. Guerra de informação. Guerra híbrida. Donos do poder. Daqueles que ganham quando perdemos. Só um chá pra acalmar os ânimos. Desse mundo cruel e humano.

Homem- Renê Paulauskas

Vil e patético é o homem, aos olhos do que ama. Sede tem, dá de beber. E quando escurece, volta pra casa e dorme. Mas tem receio de sair nas tardes claras de inverno. Medo desse bicho, homem. Que não ama. Só reclama sem ter a quem chamar.

À francesa- Renê Paulauskas

Às vezes falo demais. Outras sou mais ouvidos. Tudo depende. Se me acende o espírito. Ou se sou crítico aos dos outros. Uma hora protagonista, criticado e até mal visto. Hora, plateia. Do tipo que não faz barulho, e quando pode, sai à francesa de uma festa chata.